Segunda-feira, Maio 19, 2008

SOCIOLOGIA - MESTRADO E DOUTORAMENTO

CANDIDATURAS ABERTAS ATÉ DIA 15 DE JULHO DE 2008



RELAÇÕES DE TRABALHO, DESIGUALDADES SOCIAIS E SINDICALISMO

Coordenadores: Elísio Estanque e Hermes Augusto Costa
Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra
Centro de Estudos Sociais


Apresentação
Os dois programas de mestrado e doutoramento funcionam autonomamente (segundo o modelo de Bolonha), mas foram organizados em articulação e na continuidade um do outro. Oferecem uma formação avançada em Sociologia centrada nas áreas temáticas das relações de trabalho, sindicalismo, e desigualdades sociais e sexuais, beneficiando do conhecimento sociológico acumulado pela equipa docente a partir de uma larga experiência de pesquisa (desenvolvida no âmbito do CES). O seu objectivo é proporcionar aos mestrandos e doutorandos os instrumentos teóricos, conceptuais e metodológicos adequados à compreensão e análise das sociedades contemporâneas, com especial enfoque na sociedade portuguesa.

Período de candidaturas:
As candidaturas encontram-se abertas até 15 de Julho de 2008.
Admite-se a possibilidade de abrir um segundo período de candidaturas, entre 20 de Agosto e 7 de Setembro, dependendo da disponibilidade de vagas após a 1ª fase de candidaturas.


ESTRUTURA DOS CURSOS, GRAU E DIPLOMA

A) MESTRADO:
O mestrado tem uma duração de 2 anos e está organizado em 4 semestres.
Admite duas vias curriculares:
• via de especialização científica, conducente à elaboração de dissertação de
Mestrado (a realização da dissertação requer uma média de 14 valores na componente lectiva);
• via de especialização profissionalizante, conducente à realização de estágio e respectivo relatório.
O grau de Mestre será obtido após conclusão com aproveitamento do conjunto das unidades curriculares do plano de estudos, que totalizam 120 ECTS. A conclusão com aproveitamento das unidades curriculares dos dois primeiros semestres (sem realização da Tese ou Estágio, correspondendo a 60 ECTS) confere diploma de estudos pós-graduados pela FEUC.

Condições de acesso:
· titulares de grau de licenciatura ou de outros graus de ensino superior em sociologia ou noutros domínios das ciências sociais;
· candidatos com formação noutras áreas de conhecimento académico desde que possuam experiência profissional relevante (como tal reconhecida pela Coordenação deste programa e pelo Conselho Científico da FEUC), atestando capacidade para a realização deste ciclo de estudos na referida especialidade;
· poderão ainda candidatar-se pessoas que, não possuindo grau académico superior, apresentem currículo e experiência profissional e/ou associativa relevante, demonstrativos de capacidade para a realização deste ciclo de estudos;
· os candidatos serão seleccionados, após a sua ordenação com base numa escala de 0 a 100 pontos (considerando indicadores como: área de estudos, classificação obtida na licenciatura, experiência profissional, actividade associativa ou sindical, etc.), requerendo um mínimo de 50 pontos como condição de elegibilidade;
· recomenda-se bons conhecimentos em língua inglesa.

Os candidatos devem preencher o formulário (download ficha de inscrição em pdf, a partir da página web da FEUC: www.fe.uc.pt) e enviá-lo por correio postal, acompanhado da seguinte documentação: • Curriculum vitae. • Documentos comprovativos da posse de graus académicos ou outros diplomas relevantes. • Outros elementos considerados relevantes pelos candidatos para efeitos de avaliação da candidatura. Sempre que entendam pertinente, os candidatos podem juntar elementos demonstrativos do interesse em frequentar o mestrado. • Aceitam-se candidaturas condicionais de estudantes em fase de conclusão da licenciatura ou que aguardem emissão do respectivo certificado. As candidaturas devem ser endereçadas para a Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra, Secretariado de Mestrados e Pós-graduações da FEUC, conforme endereço (“Contactos”) abaixo assinalado.
Propinas/ Custo (a confirmar em breve):
2.500 euros (em duas anuidades de 1.250 euros cada)
Nº de vagas:
25
Duração:
2 anos


B) DOUTORAMENTO:
O curso tem uma duração de 3 anos e está organizado em 6 semestres. O grau de doutor será obtido após conclusão com aproveitamento do conjunto das unidades curriculares do plano de estudos, que totalizam 180 ECTS.
O programa está estruturado em articulação com o mestrado oferecido na FEUC na mesma área temática, dando continuidade e aprofundamento à formação aí desenvolvida e proporcionando aos estudantes que assim o pretendam, obter, em cinco anos (2 de mestrado e 3 de doutoramento), uma sólida formação sociológica, avançada e integrada, nesta área de especialidade.
Em conformidade com estes princípios, o doutoramento implica a realização de uma componente curricular, que ocupa os dois primeiros semestres, e a elaboração de uma tese, a desenvolver no decurso dos quatro semestres restantes.
Consultar Estrutura do Curso e informações mais detalhadas, em : www.fe.uc.pt, ou: www.ces.uc.pt

Condições de Acesso:
Podem candidatar-se:
· titulares de grau de mestre ou equivalente legal nos domínios da Sociologia e demais ciências sociais;
· titulares de grau de licenciatura com currículo académico e cientifico aprofundado, reconhecido como relevante e de excelência pela Coordenação deste programa e pelo Conselho Científico da FEUC;
· detentores de currículo escolar, cientifico ou profissional reconhecido pela coordenação do doutoramento e pelo Conselho Científico da FEUC como atestando capacidade para a realização do ciclo de estudos;
· os candidatos serão seleccionados, após a sua ordenação com base numa escala de 0 a 100 pontos (considerando indicadores como: área de estudos, classificação obtida no mestrado, experiência profissional, actividade associativa ou sindical, etc.), requerendo um mínimo de 50 pontos como condição de elegibilidade;
· recomenda-se bons conhecimentos em língua inglesa;

Processo de Candidatura:
Os candidatos devem preencher o formulário (Link para a ficha de inscrição em pdf – a partir da página web da FEUC: www.fe.uc.pt) e enviá-lo por correio postal, acompanhado da seguinte documentação:
· Curriculum vitae.
· Documentos comprovativos da posse de graus académicos ou outros diplomas relevantes.
· Documento/ carta justificativa, enunciando a motivação e interesse em frequentar este programa de doutoramento.
· Outros elementos considerados relevantes para apreciação da candidatura.

Propinas/ Custo (a confirmar em breve): 3.500 euros (em 3 anuidades: 1º ano - 1.500 euros; 2º ano - 1.000 euros; 3º ano - 1.000 euros;)
Nº de vagas:
12

EQUIPA DOCENTE:
António Casimiro Ferreira, Claudino Ferreira, Daniel Francisco, Carlos Fortuna, Elísio Estanque, Hermes Augusto Costa, João Arriscado Nunes, Sílvia Ferreira, Sílvia Portugal, Virgínia Ferreira.
(Prevê-se ainda o contributo de diversos especialistas, do campo académico, institucional e sindical na realização de seminários e conferências promovidas no âmbito deste programa).

Contactos:
Secretariado de Mestrados e Pós-graduações
Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra
Av. Dias da Silva, 165 -- 3004-512 -COIMBRA PORTUGAL
Tel. + 351 239 790 501 ;
Fax + 351 239 402 165
Email FEUC: mestfeuc@fe.uc.pt ; URL: http://www.fe.uc.pt

Email CES: alexandrapereira@ces.uc.pt; URL:
http://www.ces.uc.pt

Domingo, Maio 18, 2008

O Maio de 68 não morreu


No mês em que se completam 40 anos do Maio de 68 em Paris, têm abundado as reportagens, os textos de opinião e as publicações mais diversas. Toda esta excitação em torno desta celebração parece paradoxal, já que, toda a gente continua a debater e a invocar o Maio de 68 e, ao mesmo tempo, a maioria dos analistas (e até alguns dos seus antigos dirigentes) não se cansam de insistir que o Maio de 68 morreu. Não. E a prova é isto mesmo. Continuamos a debatê-lo.

Mas, se o Maio de 68 se mantém como um fenómeno extraordinário não é apenas pela importância política e histórica do momento em si, mas antes porque ele representa o culminar de todo um conjunto de acções, lutas, protestos e movimentos culturais ao longo da década de 60. Para o compreender é necessário ter presente os antecedentes e o contexto cultural que então se vivia no mundo ocidental. O período de grande crescimento económico desde o pós-guerra, a consolidação do Estado providência, a expansão do sistema de ensino, etc., tiveram como consequência um aumento significativo do poder de compra e do peso estatístico das classes médias urbanas. Deu-se uma profunda mudança nos costumes e hábitos de vida da juventude. Foram sobretudo os filhos das classes médias (e altas) que, saturados do materialismo consumista “burguês”, da hipocrisia das instituições e do moralismo conservador, que alimentaram a onda de movimentos sociais dos anos sessenta.

Eles surgiram em ruptura contra o stablishment e as convenções da época. Manifestaram-se através da música, da literatura, da poesia, da moda, dos cabelos compridos e barbas, do consumo de drogas, propondo novos estilos de vida de uma geração – na verdade a “juventude” escolarizada que, pela primeira vez, se afirmou como sujeito histórico – em oposição à mentalidade dominante, questionando os limites das instituições políticas e sociais, designadamente a família. Tanto na América do Norte como na Europa, as formas de rebelião e de contracultura juvenil vinham já da década anterior, estimuladas por todo um conjunto de factores de natureza sociocultural. O contexto de guerra fria, a corrida aos armamentos, a guerra do Vietname, a invasão da Checoslováquia pelos tanques soviéticos, apareciam aos olhos dessa geração como provas evidentes de que nem as instituições e partidos tradicionais da democracia representativa (do Ocidente), nem o velho movimento comunista, com os PCs pró-soviéticos à cabeça, eram capazes de mudar a sociedade num sentido progressista e emancipatório.

Contra a guerra, contra o consumismo, contra a moral sexista e castradora da liberdade individual, contra a família convencional, e todo um mar de valores asfixiantes para quem queria a liberdade, para quem exigia ser feliz, para quem se assumia como protagonista do seu próprio futuro. O móbil da acção não era tanto um objectivo político. Era o resultado da vivência colectiva, da partilha de sentimentos de revolta e solidariedade, que desenhava novas identidades e dinâmicas de participação. Diversos protestos e movimentos tinham explodido um pouco por todo o lado. Pacifistas, feministas, ecologistas, libertários, anti-racistas, etc., ganhavam peso e visibilidade à medida que eram atacados, por vezes com violência, pela polícia e pelas forças da ordem dos regimes democráticos. Porque respondiam com ousadia e imaginação. Em Paris a cidade parou e o movimento sindical aliou-se por momentos ao movimento estudantil. A seguir traiu-o.

O Maio de 68 e os anos 60 no seu conjunto, valem sobretudo pelo legado sociocultural e pelas marcas simbólicas que imprimiram na sociedade a partir de então. A agenda social e política sofreu alterações profundas sob a sua influência, que ainda hoje estão em curso. O que alguns designaram como “a crítica artística” ao sistema democrático e ao capitalismo, deriva justamente desse impacto sociocutural. É claro que o capitalismo conseguiu apropriar-se e incorporar boa parte dos resultados dessas acções, mas a sociedade mudou profundamente em muitos aspectos. Mesmo que muitos dos antigos activistas sejam actualmente figuras respeitáveis do sistema (e menosprezem as suas experiências da juventude), os motivos, as formas de acção e o discurso desse período continuam a merecer reflexão.

E hoje, numa altura em que em muitos aspectos as democracias revelam novamente toda a sua fragilidade, importa que assumamos a lição do Maio de 68. Não porque seja expectável a sua repetição, mas porque emergiram nas últimas décadas novas perversões no sistema social e nas democracias ocidentais, novas injustiças e desigualdades que exigem respostas e reformas inovadoras. E é cada vez mais evidente que os actores e instituições actuais são incapazes de as empreender.

Terça-feira, Maio 13, 2008

Por um pacto laboral alargado


Para além dos pormenores técnicos e dos detalhes relevantes que integram a actual discussão em torno da legislação laboral, há um ou talvez dois pontos que, para mim, constituem o essencial da divergência, embora porventura não estejam explicitas na mesa das negociações. O primeiro tem que ver com as condições de preservação (ou não) do protagonismo sindical, após a aprovação (com acordo ou sem ele) de algumas das propostas que agora estão em cima da mesa. Vejamos: nenhum sindicato irá assinar propostas suicidárias para o seu futuro. Mesmo que, em teoria, uma central sindical pudesse acreditar que a estratégia do governo visasse melhorar as condições de trabalho dos portugueses, jamais aceitaria subscrever uma orientação económica que – ainda que devido a um efeito colateral – tivesse como consequência o desmantelamento dos sindicatos tal como existem. Ora, ao dar a importância que dá à caducidade das convenções colectivas de trabalho, o governo (com mais ou menos arbitragem) pretende abrir espaço para que sejam no futuro as comissões sindicais de empresa (ou as CTs) a tornar-se os principais parceiros de diálogo na organização da futura contratação colectiva. E os sindicatos sabem disso.

Por muito que o modelo da Autoeuropa seja um bom exemplo de democracia e de diálogo social, esse exemplo é, de facto, uma espinha cravada na garganta do sindicalismo. Os dirigentes da Comissão de Trabalhadores dessa empresa conhecem bem a resistência que têm tido dos sindicatos. Porque estes percebem uma coisa que é óbvia: dentro das empresas o patrão tem mais capacidade de manipulação do que o sindicato. Não seria nada difícil “quebrar a espinha” ao movimento sindical se o sindicatos deixassem de ter margem de manobra nos processos negociais sobre a contratação colectiva. O governo até pode ter alguma razão quando diz que muitos desses acordos colectivos perderam actualidade e preciso de se adaptar as novas condições de trabalho. Mas acredito que haja aqui uma intenção subterrânea que visa objectivos políticos de fragilização do sindicalismo (em especial o mais “resistente” e mais alinhado com a estratégia do PC). Se existe uma tal estratégia, seria necessário que ela recuasse no sentido de assegurar protagonismo das estruturas sindicais no futuro, como condição para viabilizar um (desejável) acordo alargado.

Por outro lado, também seria bom que os responsáveis e dirigentes sindicais deixassem de olhar para as propostas do governo como se fossem seduções do demónio, ou tentações do lobo vestindo a pele do cordeiro. Não se pode meter tudo num pretenso saco da “precariedade generalizada”. Não se pode diabolizar propostas que contêm pontos positivos e que podem ajudar a reduzir a precariedade do emprego. Reduzir de 6 para 3 anos o limite máximo dos contratos a termo é positivo (há vários outros exemplos de aspectos favoráveis ao trabalhador). Os sistemas de trabalho mudaram e estão a mudar em todo o mundo. É necessária uma nova injecção de dinamismo e de inovação nas nossas empresas. Além disso, é preciso premiar os melhores trabalhadores, desde que os mais vulneráveis sejam também protegidos. Não se percebe que o discurso da CGTP defenda agora o status quo (dizendo que no fundo “a lei que está é boa”), quando, no tempo de Bagão Félix o “seu” Código do Trabalho” era considerado terrível para os trabalhadores.

Outro aspecto prende-se com o alinhamento da CGTP em relação ao PCP. As posições do PC não surpreendem. A sua influência hegemónica no seio da CGTP também não surpreende. A moção de censura e o radicalismo do PC são previsíveis, porque de facto é preciso apontar baterias ao PS e a Sócrates para capitalizar em votos o descontentamento dos trabalhadores. O que surpreenderia (mas seria uma boa surpresa se acontecesse) era se a CGTP se demarcasse do Partido Comunista e começasse a dar mostras de querer mesmo negociar. Apresentando as suas próprias propostas definidas no meio estritamente sindical. São conhecidas as rivalidades entre a CGTP e a UGT, que aliás estão na origem do nascimento desta última. Porém, pergunta-se, será que as divergências entre as duas centrais se sobrepõem à divergência entre trabalhadores e empresários? Não seria aconselhável (se realmente, todos pretendem, como dizem, defender em primeiro lugar os trabalhadores e o desenvolvimento do país) que ambas as centrais acertassem entre si alguns dos pontos decisivos de defesa dos direitos laborais e do estatuto dos sindicatos para com isso ganharem poder negocial com as associações patronais e o governo?

Seria uma excelente notícia se daqui a algumas semanas se obtivesse um acordo alargado, um compromisso que integrasse cedências que têm de ser feitas por todas e cada uma das partes. Garantir a força dos sindicatos é essencial num país de trabalhadores frágeis e dependentes de quem tem poder e de quem recebem o ganha-pão. Não esqueçamos que apesar dos (apenas) 17% de sindicalizados, cerca de 68% reconhecem que se não fossem os sindicatos as condições de trabalho seriam muito piores. Sindicatos fortes são condição decisiva de uma efectiva coesão e equilíbrio social e também de maior competitividade das empresas (veja-se os países nórdicos). Paralelamente, precisamos de sindicatos autónomos e abertos à mudança. Chega do "quanto pior, melhor". Flexibilizar o emprego e as condições de trabalho, mudar de paradigma no sistema produtivo é inevitável. Pode é ocorrer com mais ou com menos sofrimento, com mais ou menos conflitualidade. Apetece, portanto gritar: meus senhores, por uma vez deixem a demagogia de lado! entendam-se! Em nome do interesse do país e dos trabalhadores!

Domingo, Maio 11, 2008

Défice de democracia, excesso de desigualdades

Há sem dúvida muitos países e regiões do mundo (a África sub-sahariana, em particular) onde os problemas humanos, a fome e a miséria, a mortalidade pela doença e pela guerra, a necessidade de sobrevivência, etc., são as dramáticas dificuldades que têm de ser enfrentadas no dia-a-dia. E ao pé desses, Portugal é um país desenvolvido. Contudo, se é verdade que esses são também problemas que nos dizem respeito a todos (e para o qual temos obrigação de prestar toda a ajuda possível), isso não pode, todavia, desviar a nossa atenção do que está a acontecer entre nós, um país supostamente membro do clube dos mais avançados.

Num estudo internacional que acaba de ser divulgado, elaborado pela Demos, utiliza-se um “índice de democracia quotidiana” (EDI - Everyday Democracy Index), para avaliar a saúde das sociedades democráticas, tendo em conta seis critérios distintos. De entre os 25 países da UE comparados neste estudo, Portugal surge em 21º no EDI, uma das priores classificações (tendo atrás de nós apenas a Lituânia, a Polónia, a Roménia e a Bulgária). Desdobrando os resultados pelos referidos indicadores temos o seguinte: 1) na “democracia eleitoral”, que se refere à valorização atribuída ao exercício do voto, Portugal é 14º – o melhor de todos os items considerados; 2) na “vida cívica”, que se refere ao associativismo, Portugal é 19º; 3) quanto à “decisão e expectativa”, que mede o grau de (in)tolerância face ao centralismo dos processos decisórios, Portugal é 20º; 4) em relação ao critério “democracia familiar”, que mede o grau de tolerância quanto à participação nas tomadas de decisão; 5) o critério “serviços públicos”, relativo ao envolvimentos dos utentes na gestão dos serviços, Portugal tem o pior posição no ranking, no 23º lugar; e 6) finalmente, quanto ao item “democracia laboral”, que se refere ao grau de participação/ consulta aos trabalhadores perante as mudanças na empresa, Portugal aparece no 19º lugar. Em todos estes critérios o primeiro lugar é ocupado por países nórdicos, com a Suécia e a Dinamarca nas primeiras duas posições deste índice europeu.

Por outro lado, as disparidades de rendimentos entre os segmentos melhor e pior remunerados são marcantes: no ano 2000 a diferença entre os rendimentos dos 20% que auferiram rendimentos mais altos e os 20% pior remunerados era de 6,8 vezes maior a favor dos primeiros, passando essa mesma diferença para 6,9 vezes no ano 2005 (embora esse diferencial tenha sido ainda mais acentuado dez anos antes, quando se situava em 7,4 vezes em 1995). Esta situação, como muitas outras, é bem mais grave em Portugal do que a média dos países da União Europeia (na UE15, o diferencial era nesse ano de 4,8 vezes) e ainda mais evidente na comparação com um país como a Dinamarca, onde essa discrepância era apenas de 3,5 vezes. Segundo dados do Eurostat e do PNUD (2004), Portugal é dos países europeus onde a desigualdade social é maior. Os elevados valores da desigualdade (medida pelo índice de Gini, que afere as desigualdades segundo uma escala que varia entre um valor mínimo de 0 e um máximo de 100), colocam Portugal na cauda dos países europeus, além de que cerca de 20% da população vive ainda no limiar da pobreza, aumentado as bolsas de exclusão, a precariedade no emprego e o sobre-endividamento das famílias. Os diagnósticos disponíveis têm vindo todos eles a reiterar esta tendência. No Livro Branco das Relações Laborais (Dezembro de 2007) constata-se que as desigualdades se acentuaram entre 1995 e 2005, o que foi comprovado por todas as escalas de medição utilizadas (seis no total), tendo, por exemplo, o índice de Gini revelado o seu agravamento no mesmo período de 34,4 para 35,1.

Em suma, a herança autoritária e tutelar, a cultura de dependência e compadrio, a mentalidade patriarcal, são traços que continuam abundantemente presentes no quotidiano dos portugueses. A pobreza larvar penetra em sectores que supostamente estariam imunes a essa ameaça, endividados (ou falsamente prósperos) muitos vão dissimulando as suas dificuldades, mas para outros sectores (que rondarão os 20% da população) a pobreza é mais do que um risco, é uma realidade presente. Mas, por detrás destes problemas pairam os poderes estruturais de onde derivam largamente estas desigualdades: o hiperliberalismo, a ineficácia das instituições e das políticas e a ganância lucrativa de sectores privilegiados que beneficiam das dificuldades da maioria, os superlucros dos grandes gestores, da economia financeira, etc. É nesse sentido que o combate a este segundo conjunto de problemas depende directamente da capacidade que tenhamos, ou não, de responder ao primeiro conjunto de questões. Trata-se, aliás, de questões indissociáveis uma da outra. Porque se a democracia é, mais do que um sistema consolidado, um processo em permanente aprofundamento, expandi-la e aprofundá-la em dimensões onde ela ainda não penetrou, será sem dúvida uma forma de construir a democracia económica, ou seja, de combater as desigualdades e os seus efeitos na expansão da pobreza.

Domingo, Abril 27, 2008

Os jovens e a política

Perante tantos alertas acerca do desinteresse dos jovens pela política, conviria antes de mais lembrar que o fenómeno não é de hoje. Já no tempo em que Cavaco Silva era Primeiro Ministro as actuais tendências se faziam sentir. E nessa altura o actual Presidente não se mostrou particularmente sensível às manifestações de jovens contra as suas políticas, nomeadamente na área da educação.

Porém a chamada de atenção é importante. Esperemos que ela tenha eco junto dos seus destinatários (que, diga-se, não são apenas os jovens). Mas, antes de mais, importa perceber o porquê do desinteresse dos jovens pela vida pública. A meu ver, há três factores principais que estão na base deste acentuar da indiferença e do alheamento perante a política: as políticas neoliberais que acentuam o individualismo; a má imagem da política e dos partidos; o desemprego e a precariedade no trabalho.

1. O primeiro deriva das mudanças sociais e económicas mais gerais que, nas democracias ocidentais, têm conduzido a um aumento do individualismo, do consumismo e da desfiliação, devido às pressões do mercado, aspectos largamente acentuados pela globalização neoliberal. A isso soma-se a perda de importância da família na educação, a falência das politicas educativas nos seus diferentes níveis (básico, secundário e superior), sobretudo naquilo em que o sistema de ensino poderia contribuir para a consciência democrática das novas gerações. A história recente da nossa democracia está completamente alheada da actual juventude. A falta de atenção dada pela escola à formação cívica e política dos jovens é uma das razões para a crescente indiferença. No entanto, o individualismo, a concorrência, o salve-se quem puder deriva, naturalmente, da força do mercado e dos seus instrumentos, sobretudo as indústrias do marketing, da publicidade e da moda que, com os poderosos meios audiovisuais que têm ao seu dispor, modelam as orientações e subjectividades juvenis.

2. O segundo prende-se com o funcionamento dos partidos políticos e a sua crescente perversão aparelhistica e burocrática (ver neste blogue o post sobre Robert Michels e a lei férrea da oligarquia). O discurso repetitivo, as promessas não cumpridas, a defesa obsessiva do pequeno poder, as alianças promíscuas a recusa do debate público aberto, etc, só contribuem para cavar o divórcio entre os jovens e a política. E essa atitude dos partidos reflecte-se nas instituições públicas (em geral por eles dominadas), na sua falta de transparência (desde logo no plano local) e na forma burocrática como os utentes e cidadãos são tratados. Para além disso, os partidos vêm cultivando o carreirismo e o seguidismo ao mesmo tempo que esquecem e abandonam (ou pelo menos remetem para segundo plano) o debate ideológico e a discussão política. E as estruturas das juventudes partidárias parecem limitar-se a reproduzir, senão mesmo a acentuar, essa mesma lógica tecnoburocrática. O mesmo se passa no associativismo estudantil. O calculismo, a estratégia pessoal ou a ilusão de aceder uma carreira na política é o que mais importa na actividade do jovem e promissor quadro partidário. Percebendo isto, a massa da população juvenil (nomeadamente nas universidades) não vê nenhum estímulo em participar nas actividades cívicas e associativas (recordo apenas que nas ultimas eleições para a AAC houve uma abstenção de cerca de 75%; e noutras universidades será porventura ainda maior).

3. Finalmente, a questão laboral e da precariedade no emprego é outro motivo para a indiferença da juventude perante a política e o associativismo. Os sindicatos, embora gritem contra a precariedade, não se mostram capazes de atrair os jovens para as suas estruturas. Porquê? Há um discurso, igualmente gasto e repetitivo, que não consegue desligar-se do velho modelo, da permanente auto-vitimização ou do auto-elogio, julgando-se ainda no centro da transformação histórica (embora já sem vanguarda) ao mesmo tempo que na prática privilegia a defesa corporativista dos sectores estáveis do emprego. As experiências e movimentos associativos de outra natureza tendem a ser ostracizados pelos sindicatos. Tudo isto é agravado pelo facto de serem os jovens as maiores vitimas do desemprego, dos recibos verdes, dos contratos a termo, numa palavra, da precariedade no trabalho. Os que já trabalham e estão nestas condições têm poucas possibilidades de intervir no movimento sindical (até porque são dissuadidos de o fazer pelos empregadores). À indiferença junta-se também o medo. Os que estão à procura do primeiro emprego ou a terminar os seus cursos estão dispostos a tudo para agarrar a primeira oportunidade laboral. O tempo de sobra é para o lazer, a diversão e o consumo (mais ou menos alienantes). Compete ao poder político dar o exemplo, protegendo os que querem intervir nos sindicatos. Compete aos dirigentes associativos mudar de atitude e mostrá-lo na prática. Compete às instituições de ensino e a todos nós investir mais na construção de uma cultura democrática para a juventude do século XXI.

Sábado, Abril 26, 2008

Encerrem para obras

A confusão no PSD está instalada há muito. Mas o actual cortejo de candidatos, os que querem mas que entretanto já não querem, os apoios a esta e àquele, mas que afinal não se confirmam, os alinhamentos desalhinhados, o salvador Jardim, o salvador Santana, a federadora e pacificadora MFL, acusando-se uns aos outros de “balcanização” ao mesmo tempo que baralham e voltam a dar... Enfim, tudo isto exprime a já conhecida verdade de que o PSD só funciona quando está no poder, ou melhor, funciona não no sentido político mais digno (como se viu com Durão Barroso e Santana), mas para pôr as hostes mais calmas, para se unirem internamente e aperfeiçoarem os jogos de cintura e a bajulação do respectivo chefe, na esperança de que a distribuição de tachos pelos fiéis deixe cair algumas sobras. A voracidade e a apetência do poder, a oportunidade de se vir a lucrar com ele e o desejo insaciável de satisfazer interesses é como se sabe o caldo que fica de toda esta sopa dos grandes partidos de poder – onde o PSD, cujas referencias ideológicas, as poucas que havia, se vêm esboroando desde há muito – e é esse caldo que anima todo o frenesim interno de alinhamentos com os reais ou imaginários candidatos à liderança. Não há dúvida de que LFM conseguiu, até ver, aquilo que aparentemente pretendia: lançar a maior confusão. É a guerra civil interna. Em termos de programas e referências doutrinárias, a única diferença que pode existir hoje em dia é entre um difuso social-progressismo (que deixe algum, embora pouco, espaço para as políticas sociais e a regulação do Estado) e o puro liberalismo económico apoiado na competitividade individualista e na tecnocracia (o que é preciso é desmantelar o Estado, pois do resto tratará o capitalismo selvagem). Mas nada disto é visível no actual cenário de anarquia. Que os primeiros tendem a argumentar na defesa da matriz social-democrata (que, praticamente, só existe como retórica) e os segundos são apenas liberalismo com verniz popular já se sabe há muito. Que há uma pretensa clivagem entre elites e bases é uma total redundância. No PSD a diferença é entre usar as bases para servir a elite ou usar a elite para se servir das bases! Porque não encerram para obras e reabrem no ano 2015?

Quinta-feira, Abril 24, 2008

Portugal é um jardim?


Parece que as tropas santanistas tramaram o general da Madeira! Mas ainda assim é curioso verificar como diversos batalhões do exército PSD se começaram logo a posicionar para seguir o chefe absoluto do esquadrão insular. Surpreendentemente, diversos coronéis das hostes laranjas mostraram-se logo dispostos a entronizar o general “colonizado”! Já se preparavam para entregar a metrópole “cubana” ao guerrilheiro da ilha!

E o tiranete da Madeira, qual Napoleão ressuscitado, aparentemente dispôs-se de imediato para dirigir um putativo império ao contrário. Um império construído da periferia para o centro, da colónia para a metrópole. Se o modelo da Madeira e “a obra” deste senhor (deste péssimo aluno da Universidade de Coimbra, mas hoje tão perversamente aplaudido pelos máximos representantes do Estado) viessem a ser extensíveis ao país, teríamos certamente a oportunidade de viver num paraíso, num jardim lindíssimo da Europa. Isto, obviamente, desde que a Europa estivesse disposta a transferir para Portugal, na mesma proporção, os milhões de euros que o Estado português e todos nós temos pago para que “a obra” do general tivesse no país o mesmo resultado que tem tido na ilha. Nessa altura não teríamos um défice democrático. Teríamos um sistema autocrático, com excelentes autoestradas, repleto de florescentes off shores, com casinos por todo o lado. Enfim, um jardim florido e multicor e uma permanente diversão carnavalesca para animar o quotidiano dos turistas europeus!

Quarta-feira, Abril 23, 2008

Precariedade e condições de trabalho


As propostas anunciadas pelo governo para serem negociadas na Concertação Social prometem combater o trabalho precário em Portugal (veja-se notícia no jornal Público, 23/04/08). Será que isso vai ser conseguido? Que impactos poderão daqui resultar para o tecido empresarial? Os sindicatos irão aceitar? Na base das propostas da Comissão do Livro Branco para as Relações Laborais, as intenções do Ministro Vieira da Silva mantêm, naturalmente, a aposta na flexibilização dos despedimentos e na adaptabilidade das empresas. À margem destas propostas ficou o debate de há uns meses sobre a “flexisegurança”. De lado parece ter ficado também a tentativa de importação do modelo dinamarquês. Mas a ideia mantêm-se: maior facilidade em despedir, maior apoio à formação e reconversão dos desempregados no pressuposto de que daí resulta mais empregabilidade, mais mobilidade e mais competitividade das empresas. A ver vamos se os efeitos práticos irão ou não nesse sentido. Mas é justo reconhecer que os sinais agora dados pelo governo apontam para uma redução da precariedade do emprego, o que é positivo.

Despedimentos facilitados, mas sob condições: o despedimento individual pode ocorrer desde que se justifiquem alterações na estrutura funcional do posto de trabalho ou reconversão tecnológica do mesmo, mas isso pressupõe ofertas de formação para o trabalhador e a demonstração de quebras de produtividade. Maior flexibilização de horários: o ajustamento do horário de trabalho a uma lógica de sazonalidade, desde que acordados os limites mínimos e máximos, também me parece uma boa medida que facilita a vida das empresas. O alargamento do período de licença de paternidade/ maternidade, podendo o trabalhador optar por um período maior com perda de uma parte do salário, trará também maior liberdade de escolha. A penalização dos contratos a prazo e dos recibos verdes, com o acréscimo de impostos ou a introdução de uma taxa social é, a meu ver, uma das medidas mais importantes para inverter o aumento excessivo dos contratos precários. A redução de seis para três anos do máximo permitido para os contratos a termo, sem dúvida pode favorecer o aumento dos contratos permanentes e portanto conferir maior segurança no emprego. Um dos pontos que deverá suscitar mais polémica com os sindicatos prende-se com a contratação colectiva e o princípio do tratamento mais favorável (artigo 4º do Código do Trabalho). A possibilidade das convenções colectivas estabelecerem condições diferentes do estabelecido no Código do Trabalho, mesmo que mais gravosas para o trabalhador, pode violar aquele princípio, muito embora sejam salvaguardadas diversas situações específicas onde isso não pode acontecer.

Estas e outras propostas agora anunciadas parecem assinalar ou reforçar os sinais de uma certa viragem na atitude do governo perante a questão laboral e os próprios sindicatos. Corresponde isto a uma estratégia coerente visando a modernização e a capacidade competitiva da nossa economia? Pode ser que sim, mas se nos lembrarmos das posturas arrogantes e anti-sindicais que até há pouco tempo marcaram as acções do governo nesta área, parece evidente que isto não é alheio às manifestações e ao poder reivindicativo das estruturas sindicais. Percebeu-se que não vale a pena insistir em “cortar a direito” contra tudo e contra todos? Se assim for, ainda bem. É bom que se regresse à via do diálogo, desde que haja efectivamente vontade para negociar com os sindicalistas “rebeldes”, e sem que isso signifique o abdicar das reformas laborais. Ou será que a questão é antes a antecipação do período de pré-campanha, a pensar nas eleições do próximo ano? É muito provável que sim. Ou melhor, o mais certo é que todos estes aspectos contem nesta atitude de (aparente) abertura. Mas veremos se o processo negocial levará ou não a acordos alargados. E aí esperemos também que os sindicatos e a CGTP consigam seguir na mesma linha que levou aos recentes acordos na educação. Se assim for, é sinal de que estamos finalmente a ganhar densidade e maturidade democrática. E veremos depois se estas medidas (ou promessas) têm uma efectiva correspondência com as práticas concretas dos empresários; e se haverá condições e meios para inspeccionar e punir os prevaricadores.

Crise do capitalismo neoliberal: diagnóstico
Jornal PÚBLICO, 21.04.2008, André Freire

Vivemos sob o espectro de mais uma forte crise económica e financeira. Embora de extensão e profundidade ainda não conhecidas, o antigo presidente da Reserva Federal dos EUA já arriscou em classificá-la como a "mais grave desde a grande depressão". Uma das novidades desta crise é a de se situar bem no centro do capitalismo financeiro mundial, os EUA, associada que está à crise do crédito imobiliário de alto risco. Na última década, já tínhamos assistido às crises financeiras do México (1994-1995), do Este e Sudeste Asiático (1997), da Rússia (1998) e da Argentina (2001-2002). O rebentar da "bolha especulativa" ligada às dot.com, no final dos anos 1990, já tinha também atingido o coração do capitalismo neoliberal, evidenciando não só práticas contabilísticas fraudulentas por parte de grandes empresas americanas, mas também a conivência de certas instâncias de regulação (vide os escândalos da Enron e da Andersen Consulting, respectivamente).

A novidade da presente crise resulta, designadamente, de dois factores: situa-se no âmago do sistema financeiro e põe em evidência os problemas ligados à desregulação dos mercados de capitais (imagem de marca do capitalismo neoliberal em que vivemos desde os anos 1980). Esta crise revela os problemas das instâncias de supervisão do sistema financeiro, cujo papel foi muito enfraquecido com as novas práticas de liberalização dos mercados. Mais, o amortecimento da crise tem estado a passar por uma socialização dos prejuízos, ou seja, pela intervenção do Estado, essa bête noire dos neoliberais.
Aquando das crises financeiras anteriores, cujos epicentros se localizaram sobretudo nas periferias do capitalismo mundial, atribuiu-se o colapso dos mercados financeiros à má qualidade das instituições, nomeadamente às encarregadas da supervisão, e ao fraco ethos liberal e cívico de políticos e empresários locais, insuficiente para os situar ao nível dos seus congéneres nos países capitalistas centrais.

A presente crise vem revelar que tais explicações estariam não só erradas, mas também que eivavam de um forte "ocidentalocentrismo" (...). Mais uma vez, esta crise veio relembrar-nos que certas ideias feitas não passam disso mesmo: ideias bastante duvidosas, com pouco ou nenhum suporte empírico, e com um significativo conteúdo ideológico (e que beneficiam sobretudo determinadas forças apostadas em as fazer passar por verdadeiras e por caminhos "sem alternativa"). Uma dessas ideias feitas é a de que a liberalização à escala mundial (com o seu cortejo de desregulação dos mercados e com a redução do papel do Estado nas arenas económica e social) seria o caminho mais curto, mais apropriado e, mais uma vez, "sem alternativa", para nos conduzir a todos à prosperidade. A tabela acima evidencia que isso não é verdade (e a actualização dos dados provavelmente não traria grandes mudanças). Vale a pena citar as oportunas palavras do seu autor, J. Weeks: "Os grupos de países que adoptaram as políticas da globalização (neoliberal) em maior grau revelaram uma performance macroeconómica menos boa na década 1990 (1985-98) do que nas décadas anteriores (OCDE, América Latina, países da África subsariana); os grupos de países com melhor performance desde os anos 1960, as nações do Leste e Sudeste da Ásia, entraram numa severa recessão no final dos anos 1990; o grupo cujo crescimento aumentou nos anos 1990 e sem entrar em recessão, o Sul da Ásia, foi aquele que menos adoptou as políticas de desregulação, liberalização do comércio e levantamento dos entraves aos fluxos de capitais. Portanto, a hipótese de que essas políticas estimulam o crescimento económico não se confirma, ou seja, trata-se de um mito da globalização (pp. 272-273)."
Seria um erro grosseiro reduzir os problemas da crise do capitalismo neoliberal à má performance económica. Recordemos, por exemplo, o aumento das desigualdades à escala mundial, quer entre países, quer entre indivíduos (Relatório da ONU no PÚBLICO, 15/1/06); o crescente número de pessoas a sobreviver com apoio da assistência social ("programa federal de ajuda alimentar") nos EUA: perto do recorde histórico de 28 milhões de pessoas (PÚBLICO, 6/04/08); o significativo número de portugueses que, apesar de trabalharem, têm que ser apoiados pelo "rendimento social de inserção": cerca de um terço dos beneficiários (PÚBLICO, 7/04/08); etc.
Mas eu gostava de sublinhar que o nosso (do Ocidente, da Europa, do mundo) maior problema é a dificuldade em se afirmarem alternativas ao capitalismo neoliberal. Por exemplo, fazendo eco de declarações de colunistas do Financial Times, Rui Tavares dizia que a presente crise marca o fim da era do capitalismo desregulado. Parece-me um excesso de optimismo, sobretudo pela dificuldade de afirmação das alternativas (ainda que elas existam, e eu acho que têm sido apresentadas algumas propostas...). Um exemplo: embora reconhecendo, em editorial, os males do capitalismo desregulado, Manuel Carvalho (PÚBLICO, 6/04/08) revelava-se incapaz de reconhecer quaisquer alternativas: "Se Wall Street e Londres apertarem o jugo fiscalizador, os investidores hão-de mudar para ambientes mais amenos, seja em Zurique ou no Dubai." Ou seja, apesar das más performances económicas e sociais do capitalismo neoliberal, parece que estamos de mãos atadas: parece o fim da política... (ou será da história?) É por isso que penso que vale a pena reflectir sobre tais alternativas (tarefa para um próximo artigo).

(destaques da minha responsabilidade. EE)

Terça-feira, Abril 22, 2008

25 de Abril - Apelo à participação


O documento divulgado pela Associação 25 de Abril (editado no Público OnLine de hoje "Documento assinado por figuras do PS critica situação actual do país") apela a uma jornada de participação democrática para reavivar o espírito de Abril
Numa altura em que se cumpre mais um aniversário do 25 de Abril de 1974, é importante que os cidadãos e os partidos (sobretudo as correntes de esquerda) reflictam sobre a situação do país e os 34 anos de experiência democrática. Em vez de nos limitarmos a celebrar a data com mais um ritual em que os sucessos da nossa democracia sirvam de encenação saudosista do passado, é mais importante reler esse passado com os olhos postos no presente e nos imensos problemas com que ainda nos debatemos hoje.

«O "Apelo à Participação", divulgado ontem pela Associação 25 de Abril, conta com a assinatura de diversas figuras do PS, entre os quais Mário Soares, Manuel Alegre, Ferro Rodrigues, Almeida Santos ou Maria de Belém Roseira.
"as incertezas de uma conjuntura económica, afectada pela eclosão e desenvolvimento de várias ordens de crises e, no plano interno, pela permanência dos problemas estruturais de que o país continua a padecer, fazem com que as comemorações do 25 de Abril de 2008 se processem num clima pouco desanuviado e escassamente propício à jubilação colectiva. (...) Numa altura em que os diversos índices sociais e económicos continuam a remeter-nos para os últimos escalões da Europa Comunitária, não poderá haver lugar para o enfraquecimento dos serviços que cabe ao Estado assegurar", refere ainda o manifesto emitido pela Associação 25 de Abril».

Na verdade os três dês do movimento dos capitães de Abril (Descolonizar, Democratizar, Desenvolver) só muito parcialmente foram até agora cumpridos. Deixando de lado, por agora, a descolonização e o desenvolvimento, a própria Democratização, embora consolidada enquanto sistema político e eleitoral, se considerarmos os constantes entraves e dificuldades ao envolvimento alargado dos cidadãos nas decisões políticas e institucionais (em variadissimas áreas), constatamos que a CULTURA DEMOCRÁTICA tem vindo a sofrer evidentes retrocessos. O próprio diálogo e os mecanismos de negociação, para além do debate de ideias e da discussão política e ideológica, são actualmente aspectos vistos como secundários ou tomados como empecilhos pela mentalidade dominante e pelo poder que hoje nos governa, mesmo dizendo-se socialista. É à luz destas tendências preocupantes que o 25 de Abril e toda a experiência de participação solidária, e de esperança utópica numa sociedade mais justa, deve ser recordado e os seus ideias emancipatórios enaltecidos.

Sábado, Abril 19, 2008

A classe média e a pobreza no Brasil

A globalização e a pobreza

Miguel Monjardino
, Jornal EXPRESSO
, 14 de Abril de 2008

Há 15 dias a revista 'Veja' publicou uma reportagem sobre o crescimento da classe média no Brasil. Os números da revista brasileira parecem mostrar que o nível de vida da maioria dos brasileiros melhorou nos últimos anos. Segundo a 'Veja', nos últimos dois anos cerca de 20 milhões de pessoas deixaram de ser pobres e passaram a fazer parte da classe C, uma classe social que tem agora quase 90 milhões de pessoas. Cento e quinze milhões de pessoas pertencem agora às classes alta e média. Setenta e três milhões de pessoas estão na zona da pobreza.

O Brasil já viveu muitas alvoradas económicas. Praticamente todas elas acabaram em tempestades políticas e no empobrecimento generalizado da sua população. O resultado é um país com enorme potencial interno e externo mas também com uma enorme incapacidade para tirar partido dos seus trunfos. A reportagem da 'Veja' sugere que algo de importante se está a passar na sociedade brasileira. O aumento da classe média mostra que a estabilidade económica, as reformas e uma maior abertura ao mundo começaram a dar os primeiros resultados.

O Brasil, riquíssimo em recursos naturais, está numa excelente posição para satisfazer as enormes necessidades de países como a China e a Índia. Além disso, o tamanho do país e o facto de a sua população ser bastante jovem, tornam-no num mercado extremamente apetecível em termos empresariais. O aumento da classe média brasileira não deixará de ter consequências políticas. Ao contrário do que aconteceu no passado, a actual classe média brasileira deve a sua prosperidade ao mercado e não ao Estado. Esta nova classe média está interessada em criar riqueza, algo que exige coisas como estabilidade política, uma forte dieta orçamental para a enorme burocracia pública e mais reformas políticas e económicas. Nada disto é fácil, é verdade. Sem isto, todavia, o país terá grande dificuldade em continuar a subir na escada social e económica.

O Brasil é um exemplo de um fenómeno muito mais vasto a nível mundial - a diminuição da pobreza e o crescimento das classes médias. A diminuição da pobreza é a grande história política das últimas décadas. Infelizmente, é também a mais ignorada. Políticos, instituições internacionais na área do desenvolvimento e celebridades interessadas no desenvolvimento enquanto espectáculo continuam a falar e a agir como se a pobreza tivesse aumentado recentemente. O problema é que os números mostram o oposto. É verdade que, em continentes ou regiões como África e a Ásia Central, a pobreza extrema continua a ser um enorme problema. Mas, também é verdade que no resto do mundo o número de pessoas a viver nesta situação diminuiu imenso nos últimos 50 anos. Se recuarmos um pouco mais, ficamos com uma ideia bem mais precisa da importância daquilo que está a acontecer hoje em dia. (...)

PS - O debate, os projectos e a unidade


O que o PS precisa, nomeadamente em Coimbra é, em primeiro lugar, de novas ideias e projectos adequados à sua matriz ideológica e à condição social das suas bases e eleitores. Ideias viradas simultaneamente para dentro e para fora. Consolidar o partido e as suas secções articulando as questões locais às políticas nacionais e abrir-se aos simpatizantes e às comunidades. Desenhar projectos de acção e intervenção cívica junto das colectividades visando o desenvolvimento local e uma maior e mais actualizada consciencialização política face aos problemas com que nos debatemos. É em torno desses projectos e propostas que a discussão deve ser feita, sem esquecer as referências e os princípios doutrinários em que se insere o partido: não é só a economia mas também a sociedade; não é só o indivíduo mas sobretudo a solidariedade perante o colectivo; não é só a iniciativa privada mas a economia social, o associativismo e o terceiro sector; não é só o mercado mas o papel do Estado; não é só o investimento mas o combate às injustiças sociais; não é só o equilíbrio orçamental mas a redução das desigualdades; não é só a competitividade mas a redução do desemprego; não são só as reformas (necessárias) mas o horizonte para que elas apontam; não é só decidir e impôr as mudanças mas saber negociá-las; etc, etc, por aí fora.
É a partir da reflexão e da partilha de ideias em torno dos problemas concretos das populações, em especial dos sectores desfavorecidos e excluídos, que precisamos de propostas que envolvam os quadros e as bases do partido. Se as discussões forem travadas abertamente e com respeito pela pluralidade de opiniões é possível alcançar consensos alargados e reforçar a coesão das estruturas do partido. É na dinâmica suscitada pelo debate aberto que os militantes podem compreender e perceber a diferença entre quem quer servir o partido e a causa pública e quem se quer servir do partido para satisfazer os seus interesses pessoais. E será (ou seria) a partir daí que podem sobressair os mais capazes, os jovens com capacidade e talento político para trazer sangue novo ao PS, para integrar as novas elites de base local e dinamizar a actividade partidária. Mas se continuarmos a desgastar-nos e a esgotar as energias e o tempo das pessoas com questões menores, com a permanente conspiração, com a intriga constante que tudo divide e tudo julga diabolizando uns e endeusando outros, com o eterno cálculo contabilístico sobre quem está com quem, quem fez e quem faz esta ou aquela tropelia, etc, etc, estaremos a estimular o afundamento do partido, a contribuir para o seu afastamento da vida real e no fundo a matar a política. Esta é como sabemos a lógica neo-feudal instalada em muitas estruturas. E é contra ela que é preciso lutar. Acredito no PS do futuro! Votemos hoje pela mudança, com Carlos Cidade!

Sexta-feira, Abril 18, 2008

Última Hora

Manuel Alegre apoia Carlos Cidade!
Votemos pela mudança no PS de Coimbra!
Honremos o espírito de Abril!
Pela democracia interna!

Pela renovação!
Pelo PS!Vota Carlos Cidade!

Menezes – a visibilidade pode matar


A actual tragicomédia protagonizada por Luís Filipe Menezes (que culminou ontem com o episódio do seu pedido de demissão) é reveladora da incrível capacidade de certos políticos para se auto-destruirem nos palcos da política mediática do nosso tempo. Porém, não se trata apenas de mais uma deriva populista, afinal uma apetência tão comum nos dias que correm. O espectáculo é expressão do efeito perverso que a visibilidade mediática suscita na opinião pública: a sua apetência cega para se deslumbrar com os icons exóticos, a projecção que dão às frases inopinadas, aos fait divers, aos pseudo-radicalismos, às afirmações ridículas e fora do contexto, etc, etc.

Tudo isto fez parte do circo mediático que mostrou ao país o personagem LFM em toda a sua plenitude. Apesar do seu estilo já ser sobejamente conhecido, confesso que o seu atribulado percurso e a visibilidade que alcançou nos últimos meses nas televisões conseguiu, no entanto, surpreender-me. Surpreendeu-me porque sempre pensei que alguém que está há tanto tempo na política activa, que é presidente de câmara de uma autarquia relevante na paisagem nortenha, tivesse um mínimo de consistência e de solidez no plano político e pessoal. Ora, toda esta encenação mostrou que não há limites para o ridículo.

Ao pé de LFM até Santana Lopes parece ter recuperado alguma credibilidade. Já sabíamos que a vida pública e que a imagem de muitos dos seus personagens é puro verniz. Mais do que gelatina é apenas maquilhagem televisiva. Mas fica demonstrado que o mar de ilusões em que assenta a importância atribuída a certas figuras públicas pode desfazer-se no ar a qualquer momento. A mesma mistificação de que se alimenta o poder simbólico do populismo pode no passo seguinte tratar da sua desmontagem. Por um lado, tenho pena, porque o personagem que se segue pode ser menos interessante do ponto de vista do entretenimento. Por outro, preocupa-me porque estas experiências na liderança do PSD, por mais engraçadas que sejam, enquanto vêm e vão, fazem estragos que podem custar caro às instituições e ao sistema democrático!