Luis Guerreiro, Palmela, Janeiro 2009
Sei que quando penso em Manuel Alegre não é Manuel Alegre que eu vejo, mas antes uma imagem de Manuel Alegre. Mas sei também que a imagem de Manuel Alegre é ainda, de uma certa forma, Manuel Alegre.
Sei que é fácil apaixonarmo-nos pela imagem do poeta deslocado na política, ou do sonhador rebelde, remando contra o vento (num tempo em que nos quiseram fazer crer que tudo estava já sabido e descoberto, sem lugar já para a história e a política, e em que nos bastaria uma economia rendida ao deus mercado, que cuidaria para sempre da felicidade das pessoas). Sei que houve muitos mais sonhadores e lutadores remando contra os ventos dominantes do reinado neoliberal; mas a particularidade desta imagem de Manuel Alegre é que ela nos chega dos círculos mais estreitos do poder político. Sei portanto que nenhuma imagem nos traz toda a realidade. Sei mesmo que poderá ter havido momentos em que Manuel Alegre terá pactuado demais com lógicas de poder e de gestão do que existe e do que é imediatamente possível (num tempo em que o que existe e o imediatamente possível eram o liberalismo). Sei que houve momentos precisos e dolorosos em que Manuel Alegre esteve do outro lado do sonho (sim, o tal congresso dos anos de brasa, que ajudou a separar os socialistas do resto das esquerdas). Mas sei também que estes gestos foram sempre em nome da liberdade.
Sei do revolucionário de Argel. E sei de uns votos secretos que permitiram uma certa eleição de Álvaro Cunhal para o Conselho de Estado. E sei da voz que se levantou contra a co-incineração de resíduos perigosos próximo de zonas urbanas (e que essa voz esteve frequentemente contra o seu partido no poder, em temas tão importantes como os direitos do trabalho e em valores tão inegociáveis como a liberdade).
Sei que há outra imagem que alguns procuram colar a Manuel Alegre, o de prisioneiro de um tempo que já passou, da “Trova do tempo que passa” (de qualquer modo, um belo poema para alguém ficar preso um dia). Mas sei, sobretudo, que a imagem que prevalece de Manuel Alegre é a de um espírito demasiado indomável para caber em qualquer prisão. E sei ainda que uma cultura do “não” pode ser também uma cultura do “sim” (de outro “sim”).
Sei que só um espírito indomável poderia quebrar o maior dogma da politica portuguesa: o de que as esquerdas nunca se poderão entender (e vimos Manuel Alegre e outros homens e mulheres corajosos, dar passos nessa direcção). Sei que há um mar de ideias feitas sobre essa impossibilidade: dos mais distantes debates ideológicos do século XX (em que são esquecidas portas que ficaram abertas desde muito cedo, como, por exemplo, em Gramsci), aos traumas mais recentes de desencontros vários da nossa revolução de Abril. Mas sei também que a geração do meu filho de vinte anos se revolta contra o desemprego e o trabalho precário e contra a arrogância diária do poder, e que para essa geração não faz qualquer sentido esse dogma que afasta as esquerdas. E sei ainda que há coisas a acontecer pelo mundo que não cabem no dogma: como o Forum Social Mundial, ou as mudanças que varrem as Américas, ou alguns consensos emergentes sobre o regresso do Estado após o desastre neoliberal.
Sei que Manuel Alegre se poderá sentir um pouco só (muitos dos seus camaradas de sempre já não o contam como seu e muitos dos seus amigos mais recentes ainda não venceram todas as distâncias). Sei que Manuel Alegre não sabe tudo (“não sou uma santa milagreira”, já nos disse). Mas sei também que esta é uma das forças dos poetas na política: mesmo quando não se sabe exactamente qual é o caminho, sente-se qual a direcção que o caminho deve seguir.
Sei que é demasiada sorte ter um politico (do circulo mais estreito do poder) capaz de sentir a perda do espólio de Pessoa; e capaz de sentir o nosso tempo e a nossa condição humana para além do imediato e do superficial. Sei que contraria todas as regras da boa comunicação, mas quero partilhar convosco uma amostra desse sentimento: “(...) aquele dia de não mais esquecer/ quando os tiros soaram em Quipedro/ e ficámos cercados de metralha/ aquele dia de morrer morrer/ em que vi teu corpo sem mortalha/ no plaino abandonado trespassado/ por malhas do Império lado a lado/ (...) aquele dia em que te vi cair/ e tu a rir: nada a fazer meu velho/ já sem armas na mão e rota a farda/ aquele dia de não mais esquecer/ quando os tiros soaram na picada/ entre Quipedro e Alcácer Quibir/ aquele dia de morrer morrer” (Manuel Alegre, Crónica de El-Rei D. Sebastião, 1981).
Sei que não podemos pedir nada a Manuel Alegre. Mas sei também que daquela vez, daquela única vez, em que Manuel Alegre nos convocou directamente, houve mais de um milhão de vozes a dizer “sim” (um “não” de que nasceu um imenso “sim”). E sei também que há uma onda de descontentamento sem paralelo desde o final do “cavaquismo” (de que é símbolo, para além das maiores manifestações de sempre promovidas pela CGTP, a emocionante luta dos professores que, com mais ou menos razão, resistiu à maior mobilização de todo o poder do governo para a isolar e esmagar). E sei também que esta crise do capitalismo nos coloca num daqueles momentos raros em que impossíveis se tornam possíveis.
Sei que não podemos pedir nada a Manuel Alegre. Mas sei também que muitos amigos, mesmo se desconhecidos, gostariam de ver um gesto claro, um “não” claro a uma governação conduzida em nome de parte da esquerda mas incapaz de se distinguir do centrão dominante do reinado neoliberal que agora se afunda, abrindo novamente para um imenso “sim”, por uma esquerda plural e alternativa.
“A qualquer momento/ qualquer um/ pode dizer: eu sou o Che./ Ou mesmo sem o dizer pode partir./
Ou não partir. Mas de qualquer modo/ desaparecer./ Subir a uma montanha dentro de si/ criar um foco/ um centro de irradiação/ tanto pode ser uma guerrilha/ como um poema/ ou um silêncio. Ou até/ porque não/ um amor secreto/ Ou simplesmente uma recusa./ Algo de diferente/ um gesto que provoque uma alteração de ritmo/ uma ruptura/ uma súbita e nova relação mágica/ consigo mesmo e com os outros.” (Manuel Alegre, Che, 1996)









