Sábado, Novembro 07, 2009

palavras para Manuel Alegre

A qualquer momento, uma ruptura

Luis Guerreiro, Palmela, Janeiro 2009

Sei que quando penso em Manuel Alegre não é Manuel Alegre que eu vejo, mas antes uma imagem de Manuel Alegre. Mas sei também que a imagem de Manuel Alegre é ainda, de uma certa forma, Manuel Alegre.

Sei que é fácil apaixonarmo-nos pela imagem do poeta deslocado na política, ou do sonhador rebelde, remando contra o vento (num tempo em que nos quiseram fazer crer que tudo estava já sabido e descoberto, sem lugar já para a história e a política, e em que nos bastaria uma economia rendida ao deus mercado, que cuidaria para sempre da felicidade das pessoas). Sei que houve muitos mais sonhadores e lutadores remando contra os ventos dominantes do reinado neoliberal; mas a particularidade desta imagem de Manuel Alegre é que ela nos chega dos círculos mais estreitos do poder político. Sei portanto que nenhuma imagem nos traz toda a realidade. Sei mesmo que poderá ter havido momentos em que Manuel Alegre terá pactuado demais com lógicas de poder e de gestão do que existe e do que é imediatamente possível (num tempo em que o que existe e o imediatamente possível eram o liberalismo). Sei que houve momentos precisos e dolorosos em que Manuel Alegre esteve do outro lado do sonho (sim, o tal congresso dos anos de brasa, que ajudou a separar os socialistas do resto das esquerdas). Mas sei também que estes gestos foram sempre em nome da liberdade.

Sei do revolucionário de Argel. E sei de uns votos secretos que permitiram uma certa eleição de Álvaro Cunhal para o Conselho de Estado. E sei da voz que se levantou contra a co-incineração de resíduos perigosos próximo de zonas urbanas (e que essa voz esteve frequentemente contra o seu partido no poder, em temas tão importantes como os direitos do trabalho e em valores tão inegociáveis como a liberdade).

Sei que há outra imagem que alguns procuram colar a Manuel Alegre, o de prisioneiro de um tempo que já passou, da “Trova do tempo que passa” (de qualquer modo, um belo poema para alguém ficar preso um dia). Mas sei, sobretudo, que a imagem que prevalece de Manuel Alegre é a de um espírito demasiado indomável para caber em qualquer prisão. E sei ainda que uma cultura do “não” pode ser também uma cultura do “sim” (de outro “sim”).

Sei que só um espírito indomável poderia quebrar o maior dogma da politica portuguesa: o de que as esquerdas nunca se poderão entender (e vimos Manuel Alegre e outros homens e mulheres corajosos, dar passos nessa direcção). Sei que há um mar de ideias feitas sobre essa impossibilidade: dos mais distantes debates ideológicos do século XX (em que são esquecidas portas que ficaram abertas desde muito cedo, como, por exemplo, em Gramsci), aos traumas mais recentes de desencontros vários da nossa revolução de Abril. Mas sei também que a geração do meu filho de vinte anos se revolta contra o desemprego e o trabalho precário e contra a arrogância diária do poder, e que para essa geração não faz qualquer sentido esse dogma que afasta as esquerdas. E sei ainda que há coisas a acontecer pelo mundo que não cabem no dogma: como o Forum Social Mundial, ou as mudanças que varrem as Américas, ou alguns consensos emergentes sobre o regresso do Estado após o desastre neoliberal.

Sei que Manuel Alegre se poderá sentir um pouco só (muitos dos seus camaradas de sempre já não o contam como seu e muitos dos seus amigos mais recentes ainda não venceram todas as distâncias). Sei que Manuel Alegre não sabe tudo (“não sou uma santa milagreira”, já nos disse). Mas sei também que esta é uma das forças dos poetas na política: mesmo quando não se sabe exactamente qual é o caminho, sente-se qual a direcção que o caminho deve seguir.

Sei que é demasiada sorte ter um politico (do circulo mais estreito do poder) capaz de sentir a perda do espólio de Pessoa; e capaz de sentir o nosso tempo e a nossa condição humana para além do imediato e do superficial. Sei que contraria todas as regras da boa comunicação, mas quero partilhar convosco uma amostra desse sentimento: “(...) aquele dia de não mais esquecer/ quando os tiros soaram em Quipedro/ e ficámos cercados de metralha/ aquele dia de morrer morrer/ em que vi teu corpo sem mortalha/ no plaino abandonado trespassado/ por malhas do Império lado a lado/ (...) aquele dia em que te vi cair/ e tu a rir: nada a fazer meu velho/ já sem armas na mão e rota a farda/ aquele dia de não mais esquecer/ quando os tiros soaram na picada/ entre Quipedro e Alcácer Quibir/ aquele dia de morrer morrer” (Manuel Alegre, Crónica de El-Rei D. Sebastião, 1981).

Sei que não podemos pedir nada a Manuel Alegre. Mas sei também que daquela vez, daquela única vez, em que Manuel Alegre nos convocou directamente, houve mais de um milhão de vozes a dizer “sim” (um “não” de que nasceu um imenso “sim”). E sei também que há uma onda de descontentamento sem paralelo desde o final do “cavaquismo” (de que é símbolo, para além das maiores manifestações de sempre promovidas pela CGTP, a emocionante luta dos professores que, com mais ou menos razão, resistiu à maior mobilização de todo o poder do governo para a isolar e esmagar). E sei também que esta crise do capitalismo nos coloca num daqueles momentos raros em que impossíveis se tornam possíveis.

Sei que não podemos pedir nada a Manuel Alegre. Mas sei também que muitos amigos, mesmo se desconhecidos, gostariam de ver um gesto claro, um “não” claro a uma governação conduzida em nome de parte da esquerda mas incapaz de se distinguir do centrão dominante do reinado neoliberal que agora se afunda, abrindo novamente para um imenso “sim”, por uma esquerda plural e alternativa.

“A qualquer momento/ qualquer um/ pode dizer: eu sou o Che./ Ou mesmo sem o dizer pode partir./

Ou não partir. Mas de qualquer modo/ desaparecer./ Subir a uma montanha dentro de si/ criar um foco/ um centro de irradiação/ tanto pode ser uma guerrilha/ como um poema/ ou um silêncio. Ou até/ porque não/ um amor secreto/ Ou simplesmente uma recusa./ Algo de diferente/ um gesto que provoque uma alteração de ritmo/ uma ruptura/ uma súbita e nova relação mágica/ consigo mesmo e com os outros.” (Manuel Alegre, Che, 1996)

Sexta-feira, Outubro 30, 2009

A 'face oculta' da corrupção

Justiça ou impunidade?

Ontem disparou mais um caso. Chamaram-lhe apropriadamente Face Oculta. Na verdade uma face oculta que é assim baptizada no preciso momento em que é “descoberta”. Claro que, sendo crime, a corrupção tem de estar na sombra para poder vingar e continuar a prosperar. Prospera e cresce alimentando o enriquecimento daqueles que, habituados à ilicitude, usam todo o tipo de meios para meter ao bolso o que a todos pertence, sem o mais leve peso de consciência. Sucede que já são muitos os casos que deixaram de ser ocultos para passarem a ser explícitos.

Uma vez divulgados e sujeitos à acção da justiça inscreveram-se na nossa memória de cidadãos indignados e cada vez mais incrédulos com a lentidão e a inoperância do sistema judicial. Apito Dourado, Freeport, PBN, BPP, Aveiro Connection, Carril Dourado e agora esta “face oculta” são nomes (além de vários outros bem conhecidos) que se fixaram em nós pelos piores motivos.

Sentimos a indignação a crescer ao mesmo tempo que cresce o número de anos à espera que a justiça seja feita e os culpados sejam enviados para o castigo que merecem: a prisão efectiva. Qualquer ilegalidade merece ser julgada e qualquer crime, num Estado de direito, digno desse nome, deve ter o castigo que merece. E em certos casos o crime económico deveria ser susceptível de penas tão graves como um crime de sangue. Infelizmente, o que muitos casos do passado recente mostraram é que a face oculta é a outra face da impunidade. Isto é, não adianta muito descobrir e investigar, em especial quando os arguidos são ricos e poderosos, porque, habituados a mover-se na sombra, fazem-no mesmo quando a espada da justiça parece erguer-se sobre as suas cabeças. Processos que se arrastam, recursos infindáveis, bloqueios ao funcionamento da justiça, etc., culminam nesta sensação asfixiante e de impotência que muitos portugueses sentem – e não só os que votaram em no PP e em Paulo Portas – em relação à justiça: os grandes continuam impunes, mesmo quando, comprovadamente nos meteram a mão ao bolso.

O processo que agora culminou com 12 ou 13 arguidos (hoje surgiu mais um) é o exemplo da total promiscuidade entre o público e o privado, ou melhor, de como o interesse público é posto ao serviço do roubo privado. Os recursos de nós todos vão parar aos bolsos de corruptos que, alegremente, continuam a sorrir, a gozar la dolce vita e a ocupar cargos profissionais (privados e públicos) e políticos de alta responsabilidade. Até quando? Será que Alberto Martins (e naturalmente os vários corpos do sistema judiciário) terá condições para enfrentar tais poderes com a mesma coragem que em tempos enfrentou em Coimbra o símbolo maior do fascismo?

Sexta-feira, Outubro 23, 2009

Manuel Carvalho da Silva e o PC

A cidadania e o sindicalismo em causa

Jornal Público, 23/10/2009

O apoio expresso de Manuel Carvalho da Silva (MCS) a António Costa, na sua candidatura à Câmara Municipal de Lisboa, tem suscitado diversos comentários e, ao que parece, alguma agitação interna nos meios comunistas. O episódio seria irrelevante se não fosse o que ele exprime, por um lado, de ataque ao sindicalismo e, por outro, de desrespeito pela idoneidade e direitos de cidadania de cada um. Importa, pois, compreender o significado de tanta agitação, dentro e fora do PCP.

Do lado de fora, o objectivo parece ser – em coerência com a ideia de que a nossa competitividade só se resolve com congelamentos salariais e o fim do sindicalismo – o de atacar tudo o que venha do campo sindical, reduzindo-se a actividade da CGTP ao poder de “manobra” do PC, usando-se este caso para reiterar a ausência de autonomia, de debate e de renovação numa central totalmente submissa aos ditames do partido. Mas, estranhamente, ataca-se MCS no preciso momento em que ele afirma uma posição contrária às exigências do comité central.

Do lado de dentro do partido, enquanto MCS manifestou abertamente o seu apoio à CDU e ao camarada Jerónimo de Sousa (quer nas autárquicas quer nas parlamentares) estava tudo na paz dos deuses. Ou seja, até aí o líder sindical, o cidadão ou o militante estaria no pleno uso dos seus direitos cívicos e políticos. Mas a autonomia e a liberdade pessoais desaparecem perante os votos de uma vitória de António Costa, ainda que justificados por ser a melhor para “unir a esquerda” e realçado o apoio político à CDU no plano nacional.

Trata-se de um afiar de facas que há muito se desenha, em que as próprias contradições, o “diz que disse” etc., exprimem o clima de pressões e a vontade de vingança que reinam naquele meio. Todo o mundo sabe que a ortodoxia do PCP deseja ver MCS fora da CGTP. Para levar por diante um tal desígnio qualquer pretexto parece servir. E, como é óbvio, isso não acontece devido ao aproximar-se do limiar dos 60 anos (critério aplicável à central mas não aos sindicatos, vá-se lá saber porquê) nem a um suposto desejo de renovação ou rejuvenescimento da central.

O que acontece é que MCS ganhou peso social e capital político próprios, não à sombra do partido, não por estar em sintonia com a malfadada “linha justa”, mas pelo contrário. Ganhou espaço pelo protagonismo da estrutura sindical que lidera, mas também pela sua consistência e capacidades pessoais, consolidados em ideias sólidas, afirmadas livremente e reconhecidas quer no campo sindical e social quer no mundo académico. Esse peso específico seria um garante da autonomia (relativa) da CGTP face ao PC, mas tornou-se demasiado grande para caber no estreito pensamento de quem não admite mais concessões à “pureza” dos princípios, expurgados de todos os vícios e desvios. Princípios e dogmas que persistem em puxar para o abismo o sindicalismo combativo que ainda temos, fazendo assim o jeito a quem, do lado de fora, há muito sonha com isso.

O alentejo e a esquerda

O PCP, as autárquicas e a esquerda

Jornal Correio do Alentejo, 23/10/2009

A memória e o estatuto que o Partido Comunista Português conquistou no Alentejo, antes e depois do 25 de Abril, são marcas indeléveis inscritas no património cultural e político do Alentejo. No entanto, se continuar a recusar aprender com os seus próprios erros, toda a sua experiência histórica se arrisca a perder significado.

O PCP, e com ele larga parte das estruturas organizadas e das instituições que controla, tornou-se uma máquina burocrática cada vez mais esvaziada de ideologia e de consciência crítica (isto é extensível a outros partidos, inclusive ao PS). Não digo que não haja formação política, e que alguns dos seus quadros não tenham qualidade. Muitos deles têm-na. Mas de um modo geral o debate interno e o respeito pela controvérsia, pela opinião contrária, etc., são reduzidos ao mínimo, ou inexistentes. Em contrapartida, as fidelidades são absolutas e incondicionais. E é em parte por isso que, quando os antigos militantes e quadros rompem com o partido, quando são quebradas as lealdades, quando alguém começa a ser verbalmente agredido e desrespeitado pelo partido, os representantes oficiais abandonam, desprezam e hostilizam ferozmente os seus ex-camaradas, tratando-os como traidores e aplicando-lhes a violência simbólica mais terrível. Essas práticas são expressão da cultura estalinista que ainda subsiste.

O domínio teórico do marxismo foi progressivamente sendo substituído pelas grandes afirmações de cariz moral, de “indignação” contra o sistema capitalista, e em defesa da classe trabalhadora. Porém, essa defesa tende a tornar-se mera retórica. Não há notícia de produção intelectual, de esforço de releitura de Marx (num momento em que o seu pensamento voltou à actualidade no quadro da actual crise) para que os seus quadros saibam do que falam quando criticam a natureza do capitalismo. Os contributos para actualização das (e reflexão sobre as) teorias de Marx não vêm do PC mas de alguns académicos e filósofos que a isso se têm dedicado (veja-se, por exemplo, as obras de Luc Boltanski, István Mészáros ou Ricardo Antunes), mas que os dirigentes comunistas ignoram ou desprezam.

Onde mandam, os comunistas tornaram-se numa rede de carreiristas e burocratas, no que, aliás, dada a entrega total às suas tarefas, são em geral extremamente eficientes (veja-se muitos sindicatos da CGTP). Essa eficácia é particularmente requintada quando se trata se exercer represálias e vinganças sobre os chamados “filhos desavindos” do partido, aqueles que, por um motivo ou por outro, em dado momento se fartam e batem com a porta. Existem, inclusive, casos de ex-autarcas ou ex-deputados/ dirigentes que, rompendo com o partido e a sua ortodoxia, se mantêm estranhamente cúmplices e silenciosos, mesmo após a sua saída. Por vezes, chegam até a fazer uma espécie de juramento de fidelidade, ou ainda – veja-se o ridículo da coisa – a assumir em público as “culpas” que privadamente sabem que não têm. É curioso, e intrigante, ver como alguns dos desiludidos do PC não conseguem tirar as lições dos seus próprios erros. Mesmo quando são vítimas de “purgas” internas e facadas nas costas, continuam a reproduzir as mesmas grelhas de leitura dogmáticas, vendo o mundo a preto e branco, dividindo tudo entre os bons e os maus, entre o "certo" e o "errado". No meu blogue (bosociedade.blogspot.com) ocorreu recentemente uma discussão (a propósito das eleições autárquicas em Castro Verde) onde são patentes os ódios de morte entre antigos militantes que saíram do partido e que se conhecem desde há décadas. No mar de confusões em que muitos continuam a navegar (mesmo após a saída), não sabem o que defender nem criticar, mas alguns não conseguem abdicar do protagonismo nem das sempre inabaláveis “verdades” aprendidas no seio do partido.

Olhando as cores do mapa do Alentejo e comparando os resultados das autárquicas de 2009 com as de 2005, não consigo vislumbrar onde e em quê os incondicionais do PC/CDU encontram motivos de auto-contentamento. O bastião “vermelho” está a desaparecer. E no futuro, das duas uma: ou o PC muda e se abre, promovendo a renovação e o debate internos (o que seria bom para a democracia e para a esquerda portuguesa), ou persiste na velha ortodoxia que o levará à implosão (lenta mas irreversível) e, nesse caso, outras forças irão ocupar o seu lugar. No Alentejo como no país inteiro, talvez os movimentos associativos, juvenis, feministas, ambientalistas e as novas redes do “ciberespaço” nos possam fornecer pistas para reforçar a democracia participativa e repensar o futuro da esquerda.

Um português no Rio de Janeiro

O Brasil por descobrir
Acho que, cada vez mais o Brasil é um mundo por descobrir. 500 anos depois, os portugueses desconhecem este país imenso e fantástico. Também eu, como muitos portugueses, tinha algum preconceito e baixas expectativas quando, há cerca de 10 anos, fui pela primeira vez ao Brasil. Talvez o facto de ter estabelecido verdadeiras e fortes amizades com colegas brasileiros tenha sido uma forte ajuda para alterar o meu olhar. Isto ainda antes de lá ter ido. O certo é que, dez anos depois, já lá voltei mais cinco ou seis vezes. E de cada vez que volto constato as fortes semelhanças, mas também as grandes diferenças, entre Portugal e Brasil. Também não tenho dúvidas de que a vantagem pende, cada vez mais, para o lado deles.
Não só o Brasil é hoje uma das grandes promessas para o mundo - já é há muito o centro da América Latina - como pode ser uma potencial alavanca na própria afirmação de Portugal na Europa. Saibamos nós explorar melhor esse intercâmbio que as vantagens serão decisivas para ambas as partes. Já estão a começar a sê-lo no campo académico e económico. Mas no campo cultural e, por exemplo, na actividade editorial muito há a fazer. Oxalá o próximo governo trace uma verdadeira política cultural para os países lusófonos.
Seja, como for, a propósito de alguns comentários que tenho deixado neste blogue sobre o Brasil, um ex-aluno da FEUC (Coimbra), João Silva, actualmente a viver no Rio de Janeiro deixou o seguinte comentário, que merece algum destaque: «Depois de ler, atentamente, o comentário do Professor sobre a diferença entre Portugal e Brasil no que toca a expressos, ônibus; fiquei com vontade de deixar aqui um pequeno comentário sobre o Brasil, o qual aprendi a respeitar, e no qual vivo há mais de ano e meio (Rio de Janeiro). Para quem diz que o Brasil só tem prostitutas e criminosos, eu diria que não conhecem nada do Brasil, o Brasil é hoje um país em constante crescimento econômico, tomara Portugal ter as perspectivas de crescimento que o Brasil tem. Só para terem uma idéia - quando aqui cheguei, tal e qual um navegador português à procura de uma oportunidade, coisa que não tive em Portugal – encontrei uma realidade totalmente diferente daquela que criei no meu subconsciente, não digo com isto que tudo seja perfeito, não é – a pobreza e a conseqüente criminalidade estão aos olhos de todos. Porém, não é por acaso que o Brasil tem um povo extremamente empreendedor, aqui os jovens não temem em abrir um negócio de raiz: eles são ousados, informados e dominam as tecnologias como poucos o fazem em Portugal. Os usuários na internet multiplicam todos os dias, a troca de informações através de blogs no Brasil é enorme, nunca vi isso em Portugal - em que blogs existem, mas poucas são as pessoas que os usam para darem uma opinião limpa de qualquer tipo de ideologia. Aqui a troca de idéias é saudável, quer no nosso dia-a-dia como na internet. Perante esta tendência dos brasileiros, e falo isto em termos gerais, não excluindo os cariocas que tendem a ser mais relaxados... Acredito que, brevemente, o Brasil irá ocupar um lugar de destaque no mundo, pelo menos assim eu acredito. E não sou o único... Para que minha felicidade seja completa aqui no Brasil falta-me apenas revalidar meu diploma, que me permitirá seguir a minha carreira como sociólogo - coisa que acredito que seja uma questão de tempo. Enquanto esse período não chega estou trabalhando no ramo do turismo... Ganhando experiência, e conhecendo melhor os cantos á casa. E falando em ônibus, uso-os todos os dias para o trabalho: são baratos, rápidos (às vezes), confortáveis, mesmo que estejam mais sujeitos a assaltos. Não há nada melhor do que viver no Brasil no meio do povão, misturado na ginga e nas praias onde toda a favela vai desaguar; onde tudo pode acontecer, e, na maior parte das vezes - nada acontece... o Brasil é isto, mas muito mais... acreditem...» Abraços Cariocas

Quarta-feira, Outubro 21, 2009

Manuel Carvalho da Silva e o apoio a António Costa

A vingança do comité central

O comité central do PC e algumas figuras de topo colocadas na direcção da CGTP há muito que vêm, como se diz, "fazendo a cama" a Manuel Carvalho da Silva. Uns porque ambicionam ocupar o seu lugar na liderança da central, outros porque simplesmente têm de dar sequência a uma "doutrina" (se é que isso existe) onde nada pode bulir, isto é, onde se impõe o "pensamento único" (se é que se pode chamar a isso pensamento) como requisito da coesão e unidade do partido. Nessa paz podre, nenhum militante pode assumir uma ideia desalinhada da habitual cartilha. O que saia fora disso é traição. E a traição paga-se caro. Segundo se sabe, MCS manifestou a titulo pessoal os seus votos de que António Costa saísse vitorioso na sua disputa para a Câmara Municipal de Lisboa, desejando-lhe que retomasse a aliança de esquerda no município. Apesar de ter dito na campanha eleitoral estar aberto a alianças à esquerda, o PCP não lhe perdoa essa ousadia. Quando se tratou de manifestar apoio político à CDU durante a campanha, tudo bem! Faz parte até das obrigações de um activista. Mas afirmar uma opinião diferente do partido? Assumir pontualmente um incentivo a um candidato de outra força partidária (mesmo do campo da esquerda)? Qual quê! Isso, nem pensar. Inadmissível! A resposta imediata é a coacção e a ameaça. É a tentativa de julgamento sumário. É o "tribunal popular" a exigir retaliação, se possível com a humilhação do réu na praça pública. A caça às bruxas continua lá para os lados da Soeiro Pereira Gomes. Já não vale a pena perguntar onde pára a democracia interna do PC ou o respeito pelo estatuto e a idoneidade de MCS? Devemos é interrogar-nos sobre o que esperar do sindicalismo português quando tudo for como eles querem?...

Segunda-feira, Outubro 19, 2009

de Coimbra a Castro Verde

Portugal e Brasil: Ônibus e autocarros eXpresso

Fui de Coimbra a Castro Verde na Rede eXpresso. Um meio de transporte semelhante ao que costumo usar no Brasil e que já há uns anos largos não usava em Portugal. Aliás, das últimas vezes que tinha viajado de autocarro no país a rede rodoviária e os transportes urbanos eram uma outra coisa, dir-se-ia da era “pré-histórica”. A “feira de Castro”, um acontecimento que me remete às minhas memórias de infância, continua interessante, embora, suponho, muito diferente de há 40 anos. Mas não é esse o tema deste texto. É sim o da viagem.

As antigas viagens de “camioneta de carreira” (como se diz no Alentejo) que fazia na infância entre Aljustrel (ou Rio de Moinhos) e Lisboa eram daquelas que demoravam umas 5 horas e em autocarros cujo vidro da frente eram mais pequenos do que os pára-brisas de um automóvel dos dias de hoje (e os de trás eram dois vidrinhos em triângulo arredondado, como os que ainda existem na Índia ou na Ucrânia, por exemplo). Os assentos eram desconfortáveis, não havia ar condicionado, parava-se em todo o lugarejo, havia famílias inteiras com as respectivas merendas e por vezes até as galinhas vivas (vindas da ou para a feira, por exemplo) e tudo era mais ruidoso, precário, etc. Hoje os nossos autocarros modernos têm todo o conforto, as estradas são melhores e por isso a viagem é mais rápida e agradável. Compensa deixar o carro na garagem e viajar assim, sem pressões. Descansa-se mais e goza-se melhor o passeio. E foi assim que fui à célebre feira de Castro.

Porém, comparando o funcionamento desta rede de transportes em Portugal com a que usei no Brasil há poucas semanas, não duvido que é bem mais eficaz a do lado de lá do Atlântico. Vejamos porquê.

Para começar, em Coimbra, a estação rodoviária oferece-nos um cenário a todos os títulos lastimável; não existem assentos em números suficiente para as pessoas se sentarem; a informação escasseia ou não existe de todo; os passageiros vão-se tentando acomodar como podem ao longo dos espaços de paragem, sem saberem em que local vai estacionar o respectivo autocarro; o número do veículo que vem inscrito no bilhete ou não é visível no próprio autocarro ou simplesmente não existe; os lugares marcados, que “em tese” se podem adquirir através da internet (onde o utente pode escolher previamente o lugar onde pretende ir sentado) nem sempre funcionam; o próprio sistema informático da Rede de eXpressos, depois de tentar durante cerca de uma hora, não me aceitou o pagamento, pelo que tive de me deslocar à estação para comprar o bilhete um dia antes de viajar; conforme pude confirmar depois, os terminais de transferência estão, em geral, vazios de funcionários da empresa; as bagagens são colocadas e retiradas pelos próprios passageiros, sem qualquer espécie de controlo. Pelo caminho assistiu-se a situações de passageiros a mais, discussões por falta de atendimento conveniente, resmungos e desabafos dos próprios motoristas que (certamente por excesso de trabalho) respondiam com agressividade dizendo aos passageiros que “perguntem” à Rede eXpressos acerca disto ou daquilo...

Já no Brasil, o sistema de transportes funciona com muito mais eficácia e tem mais qualidade. As viagens são geralmente mais longas, mas ainda assim, mais baratas. E isso não se deve apenas à desvalorização da moeda; os assentos são em poltronas, muito confortáveis e devidamente numeradas; há espaço suficiente para que se transformem em autenticas “camas” e pode-se, portanto, dormir tranquilamente; nos pontos de “transfer” há outros funcionários, além do choufer, que não só arrumam a bagagem como usam um sistema de controlo sobre a mesma (o passageiro fica com um duplicado do número colado em cada mala); os terminais são fechados ao público não viajante, de maneira que as ligações para outros destinos se tornam mais simples e fáceis; existem ecrãs com informação acerca das partidas e chegadas dos ônibus; os terminais funcionam como autênticos aeroportos, com espaços e salas de espera próprios, junto das saídas para cada destino, cujas portas estão devidamente numeradas; toda a informação está inscrita no respectivo bilhete. Para quem pensa que o Brasil é um país mais atrasado que o nosso, está muito enganado, quer neste aspecto, quer em muitos outros (e cada vez mais).

Viajar de autocarro (ou noutro transporte público) pode ser uma alternativa ao automóvel a que um número crescente de pessoas pode aderir, com resultados muito positivos quer para a defesa do ambiente quer para a nossa própria carteira. Importa reconhecer que houve progressos ao nível da rapidez e do conforto nos nossos autocarros e comboios. Também confirmei que sai mais em conta viajar de autocarro do que de automóvel. Mas é importante ir mais além nos níveis de conforto oferecidos a quem paga e, acima de tudo, é fundamental que os direitos do consumidor sejam assegurados como prevê a lei. Tenho dúvidas que no caso da Rede eXpressos o princípio da livre concorrência esteja, de facto, garantido. Na maioria das ligações é apenas uma empresa que oferece o transporte de passageiros, ou seja, é um monopólio. Só assim, se percebe que – seguindo as tendências correntes, no pior sentido – a obsessão da companhia seja a poupança ao máximo, o corte nos recursos, a pressão para horários alargados de trabalho, com todos os riscos e prejuízos que isso comporta, para os trabalhadores e os passageiros.

A piada Maitê Proença

Desculpas não, Maitê - por Rui Tavares (Público, 19/10/2009)

Aqui há dias lembrei-me de uma colega brasileira, A.C., que de entre todas as profissões do mundo logo foi escolher ser antropóloga.

Uma vez, sentados para jantar numa mesquita parisiense, A.C. pediu para beber uma cerveja. O empregado disse-lhe "não temos". "Não tem cerveja!?" "Não, senhora. Temos chá de menta, refrigerante..." "E vinho, pode ser?" "Não temos nada com álcool, senhora." "Mas eu quero algo com álcool!" "Mas isto aqui é uma mesquita, senhora." "Uma mesquita? Pois eu acho isso um absurdo!"

E prosseguiu contando piadas sobre portugueses.

A.C. era ecuménica na sua falta de tacto. Certa vez entretinha-se a escarnecer do senhorio judeu que alugava um apartamento à sua melhor amiga, usando de todos os estereótipos cruéis sobre judeus. Não se lembrava que naquele bairro muitos judeus tinham sido assassinados por causa desses estereótipos, nem sequer que a própria amiga com quem falava era descendente de judeus portugueses. Não o fazia por mal. Fazia-o por ignorância. Mas a ignorância é má - e, a partir de uma certa idade, nós temos culpa da nossa ignorância.

Esta introdução serve para falar do maior escândalo de todos os tempos da semana passada: o vídeo de Maitê Proença que ficou célebre em Portugal, e no qual, além de repetir todos os estereótipos sobre a suposta burrice dos portugueses, a actriz brasileira cospe no Mosteiro dos Jerónimos.

O vídeo de Maitê não me dói enquanto português. O problema é que me dói enquanto brasileiro.

Nós podemos ser mais do que uma coisa (nós somos todos mais do que apenas uma coisa) e calha que, por circunstâncias várias e importantes na minha vida, eu sou brasileiro depois de ser português (e entre uma coisa e outra sou cabo-verdiano, estranhe quem quiser). Fico contente quando vejo que o Brasil se está a tornar um país cada vez mais importante e respeitado.

E fico decepcionado quando vejo que no Brasil, como em qualquer país grande, auto-suficiente e potencialmente imperialista, há muita gente com uma infeliz tendência para ser ignorante e desrespeitador dos outros.

Conheço Maitê Proença; para ser diplomático, nunca estive interessado em saber que acha ela de Portugal ou de qualquer outro país. É mesmo somente enquanto brasileiro que a atitude dela me faz ranger os dentes. Dá-me a mesma vergonha (admito que irracional) que tenho quando um compatriota se porta vergonhosamente no estrangeiro. A mesma que tive quando A.C. insistia em beber álcool numa mesquita. Ver alguém cuspir num monumento que é património da humanidade, e onde um país resolveu enterrar os seus maiores poetas (de entre os maiores poetas da língua em que escreve Maitê), é como ver o nosso companheiro de viagem querer saltar para o dorso de uma vaca sagrada no Ganges. A blasfémia é menor que o vexame.

Pior do que o vídeo de Maitê, só mesmo o pedido de desculpas de Maitê. Com o ar mais despreocupado do mundo, Maitê dizia que "o brasileiro é assim mesmo" - que bom para os brasileiros que não são "assim mesmo" - e - pormenor revelador - "que o brasileiro brinca até com a falta de nível cultural do Presidente". Bem, Maitê, você não entendeu nada: o Presidente Lula tem nível cultural suficiente para chorar quando sente que o seu país vai passar a ser respeitado. Você, que é actriz e escritora, ri satisfeita da sua ignorância sobre o país dos outros. Não é crime; é liberdade de expressão e deve ser protegida. Mas, quando chegar a superpotência, valha-nos o Brasil de Lula.

* Historiador e eurodeputado do Bloco de Esquerda

NOTA: Partilho inteiramente da opinião do Rui Tavares. Além do mais, também eu próprio me sinto brasileiro (como segunda nacionalidade) e já presenciei algumas das tradicionais "piadas" sobre o chamado "Mané" (isto é, o português pateta, estúpido, ignorante ... como a Maitê Proença revelou ser neste video) que em geral revelam sobretudo isso mesmo: um misto de ignorância e arrogância. Por muito que a gente se ria de nós mesmos (o que só pode ser saudável), o certo é que a piada depreciativa é sempre um modo de inferiorização que serve de alimento aos estereotipos mais ignóbeis. A infelicidade daquele video é que ilustra o estilo pretensioso e "novo-rico" de uma certa classe média brasileira, que se julga o centro do mundo... e se pensa a si mesma como ao nível da Europa avançada, de matriz "francesa" ou "british" e pretende negar a sua origem portuguesa. Em todo o caso, é também aconselhável relativizar essas coisas e não as exacerbar. Até porque anedotas de identico sentido são contadas um pouco por todo o lado, em Portugal contra os Alentejanos, na França contra os Belgas, no Brasil contra os "caipiras" ou os gaúchos, etc. Pela minha parte, apenas fiquei com pena pela pobreza de espírito revelada por uma personagem de que os portuguese gostam (ou gostavam). E -- tal como o RT -- também me senti atingido nos meus 2 lados: português e "brasileiro".

Terça-feira, Outubro 13, 2009

Cavaco Silva visto por dentro

Perfil do Presidente, por Clara Ferreira Alves
DESDE QUE o Presidente Cavaco foi eleito ainda não lhe ouvi uma palavra de jeito. O Presidente alinhava umas palavras em forma de discurso, soletra umas solenidades de circunstância, meia dúzia de lugares-comuns da sensatez e outras tantas banalidades, junta uma pitada de preocupação social e vago fervor patriótico, acrescenta umas generalidades institucionais e já está. Analistas políticos esparsos e à míngua de assunto e de política, desempregados de um regime sem ideologia, pragmático e material, que não pensa, não discute, não argumenta e apenas age e reage, tentam desesperados encontrar em Cavaco um pensamento, uma coerência ideológica ou, dada a necessidade de drama, uma ameaça. Trabalhos ingratos porque Cavaco nada disto tem para dar. Nunca teve. A sua mediania coloca-o a salvo das grandes perplexidades contemporâneas e o seu desinteresse pela cultura política, ou outra, abrigam-no das interrogações que perturbaram Soares ou Sampaio, infinitamente mais cultos e mais cosmopolitas. Cavaco é o sucessor de Eanes sem a educação sociológica e histórica de Eanes. Ou seja, Eanes tornou-se um quase-intelectual com a passagem do tempo, e Cavaco permaneceu igual a si mesmo, modesto e frugal, limitado e deslocado, amarrado à âncora da sua ignorância. Cavaco detesta tempestades e mar largo, prefere porto seguro e águas calmas. Não seria o Presidente que eu quereria eleger, é o Presidente eleito. Tanto Manuel Alegre como Mário Soares teriam sido melhores Presidentes. Como dizem os cavaquistas conformados, Cavaco não tem mundo. O mal nem é este, o mal é que ele continua a não ter mundo. E o mundo não o tem a ele. Daí os episódios paroquiais da viagem à Índia, com as queixas do "picante", ou as caricaturas de jornada onde Cavaco seja obrigado a descontrair e fazer humor. Não é o seu género. O seu género é a casa e a família, com umas incursões no país que ele genuinamente sente como seu, a seu modo. Um herói local. E um herói local incensado por um partido fundado por um homem forte e brilhante, Francisco Sá Carneiro. Um PSD que nunca encontrou substituto para o fundador e confundiu pequenas manifestações de autoritarismo e irritação com autoridade e carisma. O PSD inventou Cavaco: barões e intelectuais, bases e cúpulas, populistas e elitistas inventaram um chefe que foi rodar o carro à Figueira da Foz. Ele foi - de facto - rodar o carro à Figueira da Foz e o partido fez o resto. Faz lembrar um filme de Hal Ashby, adaptado de um romance de Jerzy Kozinsky, que conta a história de um homem simples e dado a pequenos aforismos, o jardineiro Mr. Chance, que ascende a Presidente dos Estados Unidos por um conjunto de circunstâncias. "Being There", ou "Bem-vindo Mr. Chance". É a obra-prima do grande Peter Sellers. Passava-se aquilo num tempo em que Portugal e o mundo eram mais simples e da Europa escorria leite e mel. Cavaco administrou a fortuna misturando a parcimónia e o escrúpulo moral com a amoralidade e a rapina de negociantes políticos que ascenderam a milionários graças ao Estado. Foi um período de fartar vilanagem, e chegou para todos e para duas maiorias absolutas. O currículo académico de Cavaco, um economista mediano, ajudou-o num tempo em que começava o primado da economia sobre a política e em que o défice entrou no léxico nacional. Desígnio para o país Cavaco nunca teve, e plano para o famigerado "desenvolvimento" também não. Ninguém soube ou quis saber o que seria de Portugal daí a vinte anos porque a política portuguesa caracterizava-se pela miopia e o resultado eleitoral. O curto prazo. Pagamos hoje, duramente, as consequências desta ignorância. Sempre imaginei, academicamente, o que teria achado Sá Carneiro do seu sucessor. O mundo entretanto mudou e o estatuto de Cavaco também. De primeiro-ministro activo passou a Presidente corta-fitas. É um lugar onde ele não faz o dano que faria como chefe do Executivo. As suas inexistências ontológicas continuam, com certa ternura, a mobilizar oráculos e análises com tanto rigor como a astrologia. Ler o desígnio de Cavaco é como ler o horóscopo. Interpretar o seu silêncio é como olhar para as estrelas. Um passatempo inofensivo que se tornou profissão. Os pequenos anúncios dos jornais estão cheios de sábios e professores que lêem o destino alheio. Inventaram a coabitação, como agora inventam o ódio. Nem Sócrates nem Cavaco têm a profundidade que os politólogos desocupados lhes querem atribuir. Embora Sócrates navegue em águas mais fundas que Cavaco. Por tudo isto, devo ser uma das pessoas que não sentiu irritação com o discurso de Cavaco sobre o estatuto político-administrativo dos Açores. É mais uma cena paroquial e uma anedota de Verão. Não estava à espera que ele fosse falar sobre o mundo complexo em que vivemos e vamos viver, com a perspicácia e a inteligência de um homem de Estado. Podemos tirar o rapaz de Boliqueime mas não podemos tirar Boliqueime do rapaz, dir-se-ia com crueldade. O Presidente Cavaco é um rapaz de Boliqueime e isso não é uma coisa boa. Nem má. É o que é. Num grande país europeu como a França, a Alemanha ou a Grã-Bretanha, Cavaco seria um apêndice, nunca um órgão político. Clara Ferreira Alves

Segunda-feira, Outubro 12, 2009

Preocupante Lean Production

France Telecom: 24 suicídios em 18 meses

Rita Paz Diário Económico, 29/09/09 12:30

Um trabalhador da France Telecom suicidou-se ontem devido a problemas de trabalho, elevando para 24 o número de funcionários da empresa que nos últimos 18 meses colocaram fim à própria vida.

Casado e pai de dois filhos, o homem de 51 anos deixou uma carta à família afirmando que o ambiente infernal que se vivia na empresa esteve na causa do seu suicídio.

A France Telecom confirmou o suicídio do funcionário e o presidente da empresa, Didier Lombard, viajou imediatamente para Annecy, indicou o grupo.

Com este suicídio sobe para 24 o número de funcionários da empresa que colocaram fim à própria vida desde Fevereiro de 2008, um comportamento que os sindicatos atribuem ao stress causado pela gestão empresarial e pelas condições de trabalho.

No início de Setembro, Lombard afirmou que a sua preocupação era acabar com a "espiral de suicídios" dentro da empresa. O presidente da France Telecom considerou necessário "sair desta situação de contágio" e com este objectivo anunciou uma série de medidas.

Entre as medidas estão o aumento do número de médicos na empresa e das equipes de recursos humanos, além da disponibilização aos funcionários de psicólogos externos, negociações com os sindicatos sobre o contrato social e uma formação profissional mais intensa para a evolução tecnológica.

A France Telecom tem 100.000 funcionários em França. O Estado controla 26,7% do capital da empresa, que em 2008 registou um lucro líquido superior a quatro mil milhões de euros.

Seminário na FEUC - Sociologia

A indústria automobilística no séc. XXI: processos de trabalho no Brasil Sílvia Araújo 15 de Outubro de 2009 Anfiteatro 2.2., 17 horas FEUC Síntese A indústria automobilística – paradigmática na adoção da flexibilização organizacional e dos processos de trabalho nos anos noventa – tem provado os efeitos dos mercados globalizados nas relações locais de trabalho e nas instituições do trabalho, suscitando fusões, contrações e articulando diferentes níveis decisórios, além de desenhar um novo perfil de trabalhador. Nesta conferência reflecte-se sobre o papel dessa indústria, tendo por referência os processos de trabalho no Brasil. Nota biográfica Sílvia Araújo é doutorada pela USP, pós-doutorada pela Universidade de Milão. Presentemente é Professora sénior do Programa de Pós-graduação em Sociologia da Universidade Federal do Paraná (Brasil). Autora e co-autora de diversos livros na área de Sociologia do Trabalho e do Sindicalismo. É conceituada especialista a em questões laborais, nomeadamente no sector automóvel. Ganhou em 2001 o prémio Jabuti na categoria Livro Didáctico. Livros Publicados - Eles: a cooperativa. Curitiba: Projeto, 1982. - 1º de Maio – cem anos de solidariedade e luta. Curitiba: Beija-flor, 1986. (co-autora) - Jornalismo e militância operária. Curitiba: Editora UFPR, 1992. (co-autora) - Sociologia: um olhar crítico. São Paulo: Contexto, 2009. (co-autora). Livros Organizados - Trabalho e sindicalismo: tempo de incertezas. São Paulo: LTr, 2006. - Trabalho e capital em trânsito: a indústria automobilística no Brasil. Curitiba: Editora UFPR, 2007. - O sindicalismo equilibrista: entre o continuísmo e novas práticas. Curitiba: UFPR, 2006. Organização Núcleo de Sociologia da FEUC/ Núcleo de Estudos do Trabalho e Sindicalismo do CES.

Domingo, Outubro 04, 2009

Poder local e desenvolvimento

Uma viragem nos municípios alentejanos

Artigo publicado no jornal Correio do Alentejo, 2/10/2009

A influência do Partido Comunista no Alentejo tem raízes e justificações antigas. A região foi das que mais sofreram com a ditadura salazarista e daquelas onde as desigualdades foram mais flagrantes, antes do mais, devido à presença do latifúndio, que explorou e humilhou uma população miserável e sem acesso à propriedade da terra. O PCP foi, desde os anos 30 do século passado, um autêntico bastião que resistiu e conseguiu repor parte da dignidade da classe trabalhadora alentejana. O sofrimento social teve uma voz, que, apesar da apertada repressão, apontou o caminho e foi o exemplo de um povo capaz de se “levantar do chão” para defender a sua dignidade (o conhecido romance de José Saramago retrata magistralmente essa luta).

Porém, 35 anos depois da Reforma Agrária e de, em muitas autarquias, um período quase idêntico de gestão do PC, o que temos? Para além de alguns casos exemplares, mas excepcionais, de boa gestão, temos um conjunto de vilas e cidades extremamente envelhecidas, tranquilas e muito bonitinhas, isto é, bem preservadas do ponto de vista arquitectónico, mas cujo dinamismo económico, urbanístico, associativo e cívico deixam imenso a desejar.

Há inumeros casos de gestão do poder em que a realização de obras e projectos reivindicados pelas populações não se traduzem num efectivo desenvolvimento, com resultados palpáveis no progresso e bem-estar dos cidadãos, mas antes têm como principal objectivo o reforço das dependências e a perpectuação no poder local de quem desde há muito o controla. Castro Verde é um exemplo desses. Fez-se, ao longo das últimas décadas, um trabalho interessante de apoio social, de criação de infraestruturas e no campo da iniciativa cultural, mas a sensação que se tem é que muito mais e melhor poderia ter sido conseguido se as realizações visassem uma verdadeira emancipação das comunidades, dos bairros e das associações.

A criação de serviços pode ser uma forma de criar ou ampliar a rede local de empregos, mas sem iniciativas e dinamismos empresariais mais amplos não se consegue acrescentar riqueza e promover o desenvolvimento. E por detrás dessa rede de empregos – directa ou indirectamente ligados à Câmara – vem a rede de dependências económicas e pessoais, de laços e relações de favorecimento, através dos quais o poder municipal se pode sustentar (e eternizar). Uma tal lógica contraria e limita a liberdade pessoal e política de cada um, restringindo a democracia e alimentando novas sujeições (o medo de falar contra quem domina) ao contrário da velha promessa de um poder local sempre vigiado e criticado pelo povo. Se a CDU (ou, melhor, o PCP) se consegue manter no poder durante três décadas em certos municípios é sobretudo devido a esse tipo de esquema. Ora, é exactamente por isso que se diz que a essência da democracia está na alternância e na rotatividade do poder.

Na actual campanha autárquica surgiu em Castro Verde uma candidatura, a de José Francisco Colaço, que rompe abertamente com essa situação. Luta por uma democracia de alta intensidade construída a partir de baixo. Tenta abrir um novo espaço plural de envolvimento dos cidadãos e das associações, apoiado no aprofundamento da cidadania e na projecção da vila para fora, procurando sair do circulo vicioso que está a amarrá-la e a impedi-la de progredir. Aposta na atracção de investimentos para criar emprego e fixar as populações, sobretudo os seus segmentos mais jovens e qualificadas, para seguir em frente. Para além do mais, este projecto (apesar de apoiado pelo PS) não está submetido a uma lógica partidária, tendo antes sido desenhado, desde início, de fora para dentro, e conta com muitos independentes e pessoas com trajectórias políticas variadas.

A viragem que ele procura protagonizar em Castro Verde é, no fundo, idêntica à viragem que precisamos de imprimir no Alentejo, ou seja, tornar esta região – pobre e envelhecida – em algo mais do que um produto exótico para turistas, ou um grande lar da terceira idade (por muito agradável que seja). Precisamos de um Alentejo vivo, empreendedor, desenvolvido e democrático para garantir o futuro dos nossos jovens e das gerações futuras.

Segunda-feira, Setembro 28, 2009

Day After - que fazer com esta maioria?

Afinal não houve grandes surpresas. Apesar do aumento da abstenção, não se pode dizer que seja dramático, muito menos no contexto pós-europeias. Havendo um certo cansaço do eleitorado, esse cansaço revelou-se mais num gesto de protesto contra quem deteve nos últimos anos o poder total (salvo seja). Isto era o que muitos de nós já prevíamos. A noite passada foi, compreensivelmente, de celebração. De resto, deu para que quase todos tivessem motivo para festejar (menos a Dra Manuela, e mesmo assim pode argumentar que o PSD cresceu, em votos e em deputados).

Porém, com mais ou com menos retórica, com maior ou menor triunfalismo (do CDS ou do BE), o certo é que as “vitórias” ou “derrotas” são bastante relativas. No fundo, elas tendem a medir-se em função das expectativas criadas. E desse ponto de vista, talvez a maior vitória, porque menos esperada, seja a do CDS/PP. O Paulinho bem pode mostrar a dentadura, pois o seu partido avança e afirma-se como bastião da direita. O BE, com a duplicação do número de deputados e o aumento substancial de votos, tem motivos de sobra para estar eufórico. Vai passar a contar mais, sem dúvida. Embora não saibamos ainda ao certo como. A CDU/PCP aguentou-se mais uma vez (aumentou um deputado e o nº de votos).

Por seu lado o PS conseguiu aquilo que, após as europeias, muitos julgavam impossível. Teve a “maioria clara” que Sócrates pediu ao eleitorado. Graças a quê? Do meu ponto de vista, porque o líder do PS se mostrou muito consistente na campanha, conhecedor das matérias, com sentido de Estado, com uma postura positiva e mobilizadora, vincando bem o contraste perante uma Manuela Ferreira Leite pouco convincente, crispada e negativa. Claro, a imagem foi fundamental. Sócrates tem boa imagem, e melhorou-a nos últimos tempos. Exactamente o oposto de MFL. Mostrou-se mais calmo, com a serenidade suficiente para inspirar confiança e capacidade. Esteve melhor que a sua adversária directa e conseguiu (com a ajuda de alguns notáveis do PS) beneficiar do “voto útil” e da defesa do Estado social. Mas, para além disso, no seu novo estilo, fez passar a ideia (ainda que sem o admitir abertamente) de que reconheceu alguns dos excessos e erros cometidos pelo anterior governo. Muitos dos que antes o criticaram terão visto na sua expressão algum sinal de arrependimento sincero.

E agora? Bem, no dia do jogo celebra-se. No dia seguinte pensa-se no próximo combate e começa-se a prepará-lo. Confirmou-se a maioria parlamentar de esquerda. Porém, uma “aliança de esquerda” para a legislatura tem poucas condições de avançar. Bloco e PC cresceram à custa da crítica constante às políticas do anterior governo. O BE quer chegar ao poder, mas anda há algum tempo a sonhar com “um outro PS”. Todos temos o direito ao sonho. No entanto o velho princípio da real politik obriga-nos a por os pés no chão e ler a realidade que temos. As pessoas e os líderes podem evoluir e mudar. Não sou ingénuo ao ponto de acreditar que o novo PS de Sócrates vai mudar radicalmente. Todavia, parece-me óbvio que a estratégia seguida pelo PS e o programa do futuro governo terão de adaptar-se às novas circunstâncias. E porventura saberão perceber o essencial: verificou-se uma reorientação do eleitorado à esquerda. Larga parte dos votos do BE saíram directamente do PS. As pessoas, sobretudo essas pessoas (ou seja, os cerca de 18% do BE e PCP somados), querem melhores políticas sociais, mais e melhor emprego, menos desigualdades e injustiças; querem ser reconhecidas e estimuladas no trabalho, no consumo e na sociedade; querem um sistema educativo de qualidade, com os professores motivados e os alunos a aprender; querem os jovens universitários com acesso ao emprego de qualidade.

Mesmo reconhecendo as dificuldades de um compromisso à esquerda (PS+BE+CDU), a reorientação de algumas das áreas governativas mais polémicas terá de passar pela aproximação a posições que esses partidos da esquerda defendem desde há muito (e foi em parte por isso que cresceram). Fundamental é que a liderança do PS retire argumentos que justifiquem as habituais posições irredutiveis e de contra-poder. A política de navegação à vista, com a ginástica dos acordos pontuais no parlamento, poderá ser uma saída. Mas esse deve ser sempre o último recurso, porque, assim, a permanente instabilidade será incomportável.

Sexta-feira, Setembro 25, 2009

As eleições vistas do Brasil

Em Marília, Br – a pensar nas eleições

Descobri apenas alguns dias depois de chegar aqui que a RTP Internacional está acessível. De facto, no contexto brasileiro, a televisão portuguesa sobe logo de qualidade. Fico-me perguntando se esta vontade de acompanhar o que se vai passando no país se deve apenas à conjuntura eleitoral que vivemos ou se é algo mais do que isso. O nosso país não conta para nada e essa é a primeira sensação que se sente quando saímos para fora.

Não há dúvida de que vivemos permanentemente mergulhados em ideologia. É ela que nos dá a ilusão de que a vida – e o nosso papel nela – tem algum sentido. Porventura precisamos mesmo dessa ilusão, a qual, talvez seja, afinal, mais do que uma ilusão. Mais do que pensar a ilusão como o lado contra-factual da realidade é melhor assumir mesmo que isso a que chamamos frequentemente de “realidade” tem muito de ficção e de imaginação. A realidade não é senão aquilo que pensamos ser a realidade. Por exemplo, a importância que julgamos merecer a nossa campanha eleitoral é tão inócua para o comum dos brasileiros como será, para nós, saber se a Dilma será a melhor candidata presidencial para o PT.

Sinto-me atravessado por sentimenos muito contrastantes. Por um lado, quando ligo a RTP-Int (ou acesso pela net às notícias da campanha) digo para mim mesmo que “ainda bem que estou fora de todo esse espectáculo circence”, mas, por outro lado, aquela excitação derivada da incerteza sobre como vão votar os portugueses, de não se saber se haverá ou não surpresas, se as sondagens irão confirmar-se ou falhar um vez mais, a curiosidade sobre como vão reagir os protagonistas após os resultados, etc., impele-me a procurar mais informação e a tentar acompanhar os acontecimentos.

A curta rotina desta semana é passada entre o hotel e a Universidade, com algumas passagens pelo centro da cidade, que, aliás, sendo relativamnte pequena, dá para conhecer facilmente. Dá para ir a pé do hotel para a UNESP, embora demore uma boa meia-hora. Uma cidade onde ainda há poucos edifícios em altura (na maior das ruas só existem casas de piso térreo), situada num pequeno planalto, permitindo que em certos locais se tenha uma larga vista sobre a paisagem envolvente. Foi fácil identificar a zona do centro (embora no Brasil o conceito de centro seja diferente), ou seja, o centro “popular”, com maior concentração de comércio e mercados de rua, cafés e lanchonetes, onde nem sempre existe uma “praça” de referência (embora em geral lá estejam a sede do município e a Igreja Matriz e, por vezes, o tribunal). Só dois dias mais tarde descobri o centro “europeu” (como aqui se diz), isto é, algum baro mais moderno e frequentado pelas classes médias. E, bom, cá está, alguns cafés com esplanadas, com decoração moderna, restaurantes interessantes, etc.

É num desses espaços que dou por mim a pensar em Portugal. Quantas promessas, palavras vãs, discursos acirrados, falsos sentimentos de indignação, estarão ocorrendo neste momento? Quantos fait-diverts estarão tendo lugar, manipulados pelos média e pelos adversários para incendiarem a aparente guerrilha que se vai apagar no próximo domingo (ou não)?! Muitos fazem cálculos de curto prazo, outros já pensam no fim de um governo (ou legislatura) que ainda nem começou a ser organizado.

Preocupa-me o que pensa o Bloco de Esquerda. O eleitorado PS que fugiu para a “esquerda” não quer mais o Sócrates. Os bloquistas radicais também não. É verdade. Mas, suponhamos que o BE tem uns 12% de votação, o PS uns 34% (o PSD 28%, etc.), o que irá fazer com esses votos? Poderemos dizer que o povo não quer mais governo Sócrates?... (há muito quem, lá no íntimo, pense que os votos “esclarecidos” têm mais vaor do que os votos “ignorantes”...) Será que vai usar esses votos no imediato ou pensa antes em pô-los a render “a prazo”? Vai tentar condicionar as políticas do próximo governo mas mostrar-se aberto à negociação? Vai negociar com exigência mas com concessões ou vai querer ser ele a definir as grandes linhas do governo? Em suma vai abrir-se de facto a uma negociação ou vai fingir que negoceia para se perpectuar melhor no contra-poder?

É claro que o jogo político nunca é limpo. Não o será de nenhuma das partes. Mas a negociação – a existir alguma – pressupõe a criação de condições e atitudes de abertura reciproca e que o caminho esteja suficientemente limpo das cascas de banana que serão lançadas das diferentes bancadas.

Segunda-feira, Setembro 21, 2009

Aliança de esquerda

A possível maioria de esquerda

Jornal Público, 21/09/2009

É certo que as clivagens entre os partidos de esquerda em Portugal (PS, BE e PCP) – ainda expressão tardia dos traumas do PREC –, não auguram grande optimismo para acordos parlamentares estáveis. Porém, os previsíveis resultados eleitorais justificam algum voluntarismo. Antes de mais, é legítimo esperar que, no dia seguinte às eleições, surjam alguns sinais de abertura dos principais protagonistas para compromissos políticos que garantam a necessária governabilidade. A confirmar-se a esperada vitória do PS, com maioria relativa, resta-nos como possibilidades ou um governo minoritário ou de maioria de esquerda. Em qualquer dos casos, seja na base de acordos pontuais ou de uma aliança de médio prazo, parece inquestionável que alguns entendimentos terão de ocorrer, para que o futuro governo PS não caia pouco tempo depois de tomar posse.

E aqui, entre uma cultura de rigidez e de autismo como é a do PCP (um partido que, queira-se ou não, está em processo lento de implosão) e uma cultura de maior dinamismo e democraticidade interna como é a do BE (um partido que, queira-se ou não, está em fase de consolidação como terceira força política), terá por isso mais lógica esperarmos uma aproximação entre o PS e o Bloco (caso consigam, em conjunto, uma maioria de deputados).

Se admitirmos que os socialistas e o seu actual líder já se deram conta de alguns dos erros políticos cometidos nesta legislatura, não só no estilo e no diálogo com a sociedade, mas também em áreas políticas decisivas (como a educação, o trabalho, etc), é razoável esperar que algumas concessões ocorram nesses domínios, tendo em vista um possível acordo parlamentar à esquerda. Idealmente, esse acordo deveria abranger o PCP e o BE, mas tal parece irrealista. Assim, uma aproximação entre o PS e o BE será o requisito minimo para um governo estável e de esquerda.

Para o PS isso ajudaria, e muito, a uma possível reconciliação da sua actual liderança com aqueles segmentos desiludidos do seu eleitorado que nestas eleições votarão mais à esquerda ou abstêm-se. Para o Bloco de Esquerda, seria uma fantástica oportunidade de mostrar ao eleitorado o seu sentido de responsabilidade, assumindo-se, de facto, como uma força alternativa, que não apenas cresce para protestar ou gritar mais alto, mas que é capaz de colocar no seu horizonte a governação (sem esquecer que o seu crescimento eleitoral é sobretudo à custa do PS).

Acresce que a eventual influência do BE no governo (com ou sem a ocupação de pastas no executivo) poderia garantir mais transparência e eficácia na acção reguladora do Estado, e, em contrapartida, essa eventualidade significaria que o Bloco assume o reformismo e a economia de mercado como eixos estruturantes da organização socioeconomica. É claro que isso teria um preço elevado. E certamentente entraria em choque com a praxis e a linguagem radical de alguns sectores bloquistas. Mas, a verificar-se, tal cenário pode significar um decisivo virar de página na história da esquerda e da democracia portuguesa.

Desemprego jovem

Uma geração à procura de um lugar no mercado

Diário de Notícias, 21/09/2009

A maioria dos dois milhões de trabalhadores precários tem menos de 30 anos, tornando o problema do emprego um dos mais expressivos para os jovens. Especialistas alertam para o medo e frustração que a instabilidade laboral provoca nesta população. Mas muitas áreas se cruzam quando se fala de juventude, por isso, a Secretaria de Estado tem apostado na ligação entre os vários ministérios

"Os jovens têm o problema do emprego, da formação profissional e da saúde que lhes são próprios." O diagnóstico é feito por Laurentino Dias, secretário de Estado da Juventude e do Desporto.

Por considerar que a juventude é transversal, o governante apoiou a constituição de uma comissão interministerial da juventude, através da qual foram dadas a conhecer petições e preocupações dos jovens aos vários ministérios. Da reunião destas áreas resultaram alguns programas dirigidos aos jovens, como o Cuida-te - que trata da educação para a saúde -, ou o INOV-Jovem, um apoio ao primeiro emprego, explica Laurentino Dias.

De facto, a relação dos jovens com o mundo do trabalho não tem sido fácil. Dos dois milhões de trabalhadores precários existentes em Portugal, a maioria tem menos de 30 anos e dos mais de 500 mil desempregados, 65 mil têm menos de 25 anos.

"Há uma ideia perniciosa em relação à precariedade que é a de ser uma situação normal e ainda mais quando se é jovem", critica Cristina Andrade, um das fundadoras do movimento Ferve (Fartos d'Estes Recibos Verdes). A líder do movimento, que nasceu durante este Governo, defende que "o mercado de trabalho não deve ser um calvário, onde as pessoas primeiro têm de merecer a confiança dos empre- gadores para depois terem um contrato".

Também Arménio Carlos, da CGTP, sublinha que "as alternativas dadas aos jovens pelas empresas são o trabalho precário ou o desemprego". O dirigente sindical recorda ainda que "a precariedade dos jovens é a antecâmara do desemprego. Até porque 60% dos desempregados são trabalhadores que não viram o seu contrato renovado".

Uma situação que é também denunciada pelo especialista em relações laborais Elísio Estanque, que lembra como a lei dos recibos verdes foi desvirtuada. "Milhares de trabalhadores, sobretudo os recém entrados no mercados de trabalho, permaneciam anos a fio nesse regime, desvirtuando o espírito da lei e fazendo crescer a precariedade. Para além dos recibos verdes, também os contratos não permanentes (ou a termos certo) se inseriram nesta mesma lógica", adianta.

No entanto, o sociólogo da Universidade de Coimbra não deixa de alertar para os efeitos sociais deste problema. Existe uma "grande frustração para aqueles que investiram na sua qualificação na expectativa de alcançarem um emprego digno e compensatório". Já do ponto de vista social "gera-se insatisfação, mal-estar e desmotivação pelo trabalho, acentuando o pessimismo e também o 'individualismo negativo' suportado por sentimentos de ansiedade e de medo", acrescenta Elísio Estanque.

Atendendo aos desafios que os mais jovens enfrentam, Laurentino Dias aconselha um maior diálogo com eles. "O próximo Governo deverá enveredar ainda mais por este caminho de encontrar com os jovens as soluções para as políticas mais relevantes para uma juventude mais integrada na sociedade".