Sexta-feira, Outubro 12, 2007

Ciberespaço, ficções e democracia

Na era da globalização em que hoje vivermos, o “ciberespaço” representa uma revolução digital e material, que contém uma infra-estrutura (as redes de computadores) em rápida expansão global e uma superestrutura (a realidade virtual) presente nos ecrãs dos computadores e da televisão. A criação de uma espécie de oportunidades de “Presidência doméstica sobre o Mundo Global”. O utilizador imerso num mundo de dados e informação é capaz de captar todos os saberes, viajar sem limites num espaço onde a realidade virtual é mais forte do que a realidade concreta. É uma hiperficção, ao mesmo tempo hiperrealista que permite a qualquer mortal realizar os sonhos burgueses mais ambiciosos (Baudrillard). É uma imagem ideológica, invertida, de um mundo ficcionado, que se transforma numa fuga surreal às identidades fixas e aos constrangimentos e pressões do dia-a-dia, na vida doméstica, no emprego, nas instituições. Uma forma de “expulsar” das preocupações diárias os problemas do mundo real, muito embora o mundo pareça possuir um sentido transparente e ao mesmo tempo virtual (Stallabrass). Com efeito as ficções ou "ilusões" podem ter um alcance prático extremamente poderoso.

A Internet e a televisão assumem-se como meios nos quais as pessoas se sentem “representadas” por poderem participar, e projectam-se ou identificam-se com os ícones mediáticos, sem o risco da convivência ou da experiência face-a-face. Esta espécie de Ágora electrónica é, mais do que uma utopia, é uma distopia, pois, embora se trate de um mundo de ilusões/ ficções, tem importantes efeitos práticos e ajuda a manter o poder dos que controlam o mundo. Para os mais incautos tudo isto cria uma ilusão de homogeneização cultural. Mas a cultura é precisamente a luta contra a uniformidade, é a afirmação da diferença baseada na defesa identitária.

O “ciberespaço” vem-se afirmando como uma nova dimensão da vida social carregado de novas complexidades, onde se cruzam múltiplas contradições. As novas tecnologias e redes informáticas constituem um campo fértil que simultaneamente amplia os mecanismos de mercado, formas de consumo, de controlo e de alienação, mas ao mesmo tempo fornecem um novo campo de imaginação, de acção e dinamismo da luta social, com amplas potencialidades na dinamização do debate público. Ocupam um lugar de vanguarda na construção da consciência crítica, da cidadania e da emancipação colectiva do século XXI. Estou em crer que passa por aí a disputa entre os poderes dominantes da globalização neoliberal e o activismo político dos movimentos sociais em rede que lutam pelo reforço da cidadania através da democracia participativa.

Mas, apesar das promissoras oportunidades que estes meios hoje apresentam, em Portugal as instituições públicas, os sindicatos, os partidos políticos, as autarquias locais, etc, não dão sinais de saber retirar deles o devido proveito, em especial no sentido de tornar as suas estruturas mais transparentes, quer na divulgação da informação que controlam quer na abertura à participação dos utentes, dos militantes, dos associados, dos munícipes e dos cidadãos na renovação das estruturas, dos procedimentos e na melhoria dos serviços prestados à comunidade. Em vez disso, muitos serviços continuam a funcionar segundo lógicas corporativas, na base de sistemas fechados e burocratizados, indiferentes às novas tendências de mudança social e aos défices democráticos que persistem em variados domínios da sociedade.

3 comentários:

Fly (o que vê azul) disse...

Caro Professor Elísio...
Por isso sou daqueles que defende a idéia de que a Internet não é uma rede de computadores, mas uma rede de pessoas. Os encontros e desencontros que ocorrem no virtual não são frutos de uma espécie de recriação da realidade, como pensa Baudrillard. O ciberespaço é o espelho do real. A virtualidade é apenas o meio onde a "imagem" se transfigura e toma novos contornos ou novas formas. Como se fosse um espelho que, se não for perfeito, reflete mal e deforma a imagem. ;)
Convido bisbilhotar o meu blog. Um abraço com saudades de uns copitos no Tropical a jogar conversa para o ar.
Fly

Nuno disse...

Para compreender a Hiperrealidade que o Baudrillard fala,é suficiente ler as suas obras"Simulacro e realidade" e a "sociedade de consumo"?

Nuno disse...

Um bom exemplo de como a Internet pode promover activismo ambiental dos movimentos sociais em rede são as organizações como a Greenpeace ou a Quercus,cujas acções só apareciam nos "alinhamentos" finais dos telejornais e hoje graças ás redes de computadores já adquirem uma visibilidade mediática muito maior!